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19 de janeiro de 2014

Stadshuset | A Prefeitura de Estocolmo, Suécia


Tradução do Sueco: Stad – Cidade / Huset - Casa

Durante a nossa visita a Estocolmo, fizemos um tour pela sede da Prefeitura da Cidade. O nosso tour percorreu grande parte da edificação. Isso nos permitiu conhecer um pouco sobre o funcionamento da prefeitura e entender também como um edifício tão antigo consegue ser flexível o suficiente a ponto de abrigar diferentes eventos.


Edificação vista a partir do pátio central.
Projetado pelo arquiteto Ragnar Östberg, o edifício da prefeitura de Estocolmo foi construído entre 1911 e 1923.  A edificação não se enquadra em um estilo de arquitetura específico.  Ao contrário, o projeto faz referência a diversos estilos arquitetônicos, dentre os quais sobressai a influência do renascimento italiano. A construção é inteiramente constituída por materiais locais; um total de oito milhões de tijolos foram utilizados, estes todos provindos do sul da Suécia.

O edifício é organizado ao redor de um pátio central. Uma espécie de vestíbulo através do qual é realizado o acesso ao edifício; um espaço agregador cujo encerramento protege dos ventos frios nos meses de inverno. A única fachada que possui uma maior abertura é a que segue de frente para o mar, com uma arcada que permite a visualização da água de dentro do pátio.






A Sala Azul e o Banquete do Prêmio Nobel



 Todos os anos, no dia 10 de dezembro, é organizado aqui o Banquete do Premio Nobel. O premio é entregue em outro edifício (o Konserthuset) e depois da cerimônia, todos seguem para o Stadshuset para o ‘Nobel Banquet’. Todos os prêmios Nobel são entregues aqui em Estocolmo, com exceção do premio Nobel da Paz – este é entregue em Oslo, na Noruega. Essa concessão foi um acordo entre os governos e permanece um gesto de amizade entre as duas nações.

O banquete acontece no “Blue Hall” – a Sala Azul. Engraçado chegar aqui e ver que na verdade a sala não é azul, mas sim vermelha. O projeto original determinava que a sala fosse inteiramente azul e durante os anos de sua construção, ela sempre foi chamada de “a sala azul”. A medida que ela foi ficando pronta o arquiteto gostou tanto da cor bruta dos tijolos que optou por mantê-la assim mesmo. A essa altura, todos já estavam tão acostumados a chamá-la de sala azul que ela continuou com esse nome, mesmo mudando de cor.





A ideia original também era fazer essa sala sem cobertura, completamente aberta. Considerando o frio que faz na Suécia, eles desistiram dessa ideia e projetaram um telhado. A solução encontrada pelo arquiteto para compensar o encerramento da cobertura foi criar uma linha de janelas que segue por toda a sala, logo abaixo da linha do telhado. Esse gesto dá a impressão de que o mesmo se desprende das paredes e flutua, o que atribui uma maior leveza à cobertura escura, além de permitir a entrada da luz indireta no ambiente.

A Sala do conselho




O conselho de Estocolmo conta com 101 membros de 7 partidos diferentes. Eles se reúnem aqui uma vez a cada 3 semanas, geralmente toda terceira segunda feira do mês. Suas sessões são abertas a população como podemos ver pelas galerias com arquibancadas nas duas extremidades da sala.

A sala é predominantemente vinho e conta com uma pintura azul no teto, que imita o céu. O guia nos explicou que essa atitude faz alusão às casas dos vikings – que não tinham janelas e cujas únicas aberturas eram zenitais. Apesar de estarmos numa sala sem aberturas zenitais, a claridade da pintura faz parecer que vem uma luz de cima.



A Torre


A Prefeitura da Dinamarca foi construída na mesma época. Ela ficou pronta um ano antes da Prefeitura de Estocolmo e possui uma torre de 105 m de altura. A torre de Estocolmo foi feita com 106 metros de altura. Uma pequena rivalidade.



Prince Gallery – A Galeria do Príncipe


A composição dos murais da sala foi cedida ao Príncipe Eugene, que gostava de pintar. No lado da sala voltado para o interior do edifício, ele pintou a paisagem. Assim sendo, nos jantares, aqueles que se sentam de costas para a janela ainda podem apreciar a ‘vista’ através da pintura.




The Golden Hall – A Sala Dourada





Essa sala foi idealizada por Einar Forsethpor, um artista sueco que passou um tempo estudando na Itália. Pelas fotos, podemos claramente ver uma influência da arte bizantina sobre a sua obra. Ele pediu ao Ragner Östberg sete anos para terminar o mural porém o arquiteto não concordou e lhe deu um prazo de dois anos. Ele aceitou e trabalhou com uma grande equipe mas, como o seu prazo foi muito curto, alguns erros acabaram acontecendo. Entre eles, o São Jorge representado, o patrono da cidade, que se encontra no topo da parede, ficou sem cabeça. Isso foi por conta de uma alteração no projeto que incluiu posteriormente uns bancos nas laterais. Com isso, o mural todo subiu e o santo que estava no topo acabou ficando sem a sua cabeça. O equívoco foi perdoado já que, coincidentemente, São Jorge morreu decapitado. Esse se tornou o argumento oficial para justificar a composição final.



19 de novembro de 2013

Chandigarh e Brasília | Um mesmo gesto colonizador em cantos opostos do mundo

Visitar Chandigarh não fazia parte do nosso roteiro original. Depois da viagem de trem pelo Rajastão, tínhamos ainda 2 dias em Delhi. Ao descobrir que Chandigarh fica a apenas 3 horas de trem da Capital, não pude deixar de ir passar um dia pela cidade.


Uma nova capital para o Punjab

Com a independência da Índia do Império Britânico, em 1947, e a partição e criação do Paquistão, a antiga capital da região do Punjab (Lahore) passou a pertencer ao Paquistão.  O Punjab precisava portanto de uma nova capital. Em um primeiro momento, pensou-se em adaptar a estrutura do governo a uma cidade existente mas, em virtude da nova demanda populacional, com mais de 4,5 milhões de emigrantes provindos do Paquistão, chegou-se ao acordo de construir uma nova cidade do zero - Chandigarh.

Após a definição de um sítio, a contratação de urbanistas para desenvolverem o masterplan da cidade foi efetuada.  Jawaharlal Nehru, o primeiro ministro da época, contratou os americanos Albert Mayer e Matthew Nowicki. Mayer serviu de tenente na India durante a 2ª guerra, ocasião em que conheceu Nehru, e demonstrou-lhe o seu interesse de algum dia trabalhar em algum projeto para o país. Eles iniciaram o projeto porém, em agosto de 1950, o seu sócio morreu em um acidente de avião. Mayer então declarou que não conseguiria continuar o projeto sozinho e abandonou-o pela metade. 

Após este choque, houve um momento de indecisão. Quem deveria herdar esse projeto, se encarregar da construção e concepção da nova capital?  Após a discussão em torno de vários nomes, fechou-se entorno de Le Corbusier.

Le Corbusier Center
Chandigarh Architecture Museum - Museu de Arquitetura de Chandigarh
Museu de Arquitetura de Chandigarh
Entrada de Luz no Museu de Arquitetura
Modulor

O Plano de Corbusier e a semelhança com Brasilia

Ao visitar Chandigarh, a comparação com Brasilia torna-se inevitável.  Chandigarh(1947) e Brasília(fundada em 1960) nasceram com pouco mais de 10 anos de diferença. Em ambos os contextos, este era um momento de grande expectativa em relação ao futuro. Na Índia, com o fim de uma guerra religiosa e a separação do estado do Paquistão e, no Brasil, com a prosperidade e desenvolvimento econômico. Brasília foi uma cidade concebida para ser apreciada pelo ponto de vista do carro.

Plano Urbano de Chandigarh

Plano Piloto para Brasília, de Lúcio Costa


Ambas seguem os princípios da Carta de Atenas, de 1933 - o modelo de cidade progressista com as diferentes zonas claramente delimitadas: habitar, trabalhar, lazer e circulação. Em Chandigarh, estas zonas são distribuídas por uma malha de retângulos, denominados ‘setores’, cada um medindo 1.200 x 800m. Em Brasília, temos as “superquadras” residenciais, de 240mx240m, que seguem o grande arco das asas do Plano Piloto.

High Court - Supremo Tribunal

High Court
Secretariat

Secretariat
 De modo semelhante ao Plano Piloto de Lúcio Costa, no qual a praça dos três poderes – com o Palácio do Planalto (executivo), o Supremo Tribunal Federal (Judiciário) e o Congresso Nacional (legislativo) - ‘encabeçam’ o conjunto, é no ‘Capitol’, no extremo norte de Chandigarh, que se situa o ‘Secretariat’, o ‘High Court’ (Supremo Tribunal Federal) e a Assembléia. Apesar de ocupar uma posição de evidência na malha, o Capitol se adequal à mesma, preservando a estrutura dos módulos.  O Capitol corresponde à dimensão de 2 módulos unificados. Contrariamente, em Brasília o governo é distinguido não apenas pela sua posição no plano mas pela sua forma também.

Congresso Nacional, projeto de Oscar Niemeyer


Em Chandigarh foi criado um lago artificial, bem como em Brasília. Esta é a principal área de lazer da cidade.

Enquanto em Brasilia, a cintura verde é ao longo da faixa residencial, em Chandigarh ela atravessa a cidade numa uma faixa verde que corta a cidade sentido norte sul. Uma cintura verde com diversos jardins, entre eles o Rose Garden.

O setor comercial está concentrado no setor 17. Galerias em torno de uma grande praça que propiciam o encontro e o passeio sob os pilotis. Lembra um pouco a tipologia do ‘Connaught Place’ de Nova Delhi.

Setor 17 - Centro Comercial


O Racionalismo encontra a Cultura Local

Sinalização de Trânsito













Os espaços públicos de Chandigarh são organizados e bem cuidados. Essa foi a primeira cidade na Índia onde eu percebi que o trânsito realmente funciona. Perdi as esperanças depois de presenciar o caos dos congestionamentos de Nova Delhi. Não que a cultura seja outra, mas parece que todo o sistema orienta melhor as pessoas. Essas, por sua vez, se sentem mais inclinadas a obedecerem as regras. Há muitas latas de lixo na rua, bicicletários, sinalizações – Tais elementos parecem fazer com que as pessoas cuidem mais do espaço público.

Obviamente há elementos que fogem do plano original. Não dá para o urbanista querer controlar tudo. Em muitos casos, a população adequou o construído à sua cultura e o ocupou em função das suas necessidades.  Houve casos como alguns pontos de ônibus, por exemplo, que as pessoas utilizaram para prender as vacas.




Um outro exemplo, no Capitol, sob o monumento da mão aberta, viu uns funcionários aproveitando o espaço livre para jogar uma partida de “Cricket” durante o intervalo do almoço.


O modelo Progressista de Le Corbusier, terá ele ajudado os residentes de Chandigarh a viverem melhor? A escala certamente facilita a sua organização. Chandigarh é uma cidade 1 milhão de habitantes, pequena em comparação com Mumbai (12 milhões), Delhi(11 milhões) ou Bangalore(8 milhões). Talvez o bom funcionamento se dê também graças à jovialidade da cidade, um otimismo impregnado desde a sua concepção. Seja como for, Chandigarh permanece um forte exemplo de como um bom projeto pode influenciar o comportamento das pessoas, mas que mesmo um bom projeto está sujeito a ocupações e apropriações inesperadas do espaço por parte dos seus usuários.