Mostrando postagens com marcador São Paulo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador São Paulo. Mostrar todas as postagens

7 de janeiro de 2016

Chiharu Shiota no SESC Pinheiros | São Paulo



Aos que estiverem em São Paulo essa semana, ainda dá tempo de conferir a exposição “Em Busca do Destino” no SESC Pinheiros, que traz 3 intervenções da artista japonesa Chiharu Shiota.  Shiota já foi assunto aqui no blog com a sua belíssima intervenção para a Bienal de Arte de Veneza 2015. A exposição termina domingo, dia 10 de Janeiro.

“Em busca do destino”, que é a primeira exposição da artista no Brasil, traz uma reflexão sobre a vida que poderia ter sido. Shiota diz que sua família cogitou se mudar do Japão para o Brasil e que ela facilmente poderia ter nascido aqui.  Ao andar por São Paulo, especialmente pelo bairro da liberdade, ela procurou imaginar a vida que poderia ter sido.

Sapatos foram doados pelas pessoas.


A memória é um tema recorrente na obra da artista.  Ela utiliza objetos antigos e do cotidiano - cartas, malas e sapatos – objetos que, segundo ela, estão repletos de histórias e sentimentos.

Intervenção com malas antigas penduradas sobre a escada rolante.
Suas intervenções contaram com a participação da população, que se dispôs a doar sapatos e a escrever as cartas de agradecimento que foram utilizadas na instalação principal.  Embora cada obra ocupe o espaço de uma maneira diferente e seja composta por elementos distintos, todas elas tem um fio condutor em comum, uma linha de lã que liga os objetos entre si.  Essas linhas enaltecem a relação entre os objetos e também agem como estrutura da obra.


"Cartas de agradecimento". A composição de linhas gera corredores.




17 de dezembro de 2015

João Vilanova Artigas

foto: cristiano mascaro. fonte: archdaily.com


Em 2015, João Vilanova Artigas completaria 100 anos.  Ao longo deste ano, foram realizados diversos eventos comemorativos relembrando a vida e obra do arquiteto; O Itaú Cultural em São Paulo organizou uma exposição reunindo vídeos, fotos, desenhos e maquetes da sua obra; Em Junho foi lançado o documentário “Vilanova Artigas: o arquiteto e a luz”(cujo trailer se encontra abaixo), dirigido por sua neta Laura Artigas e Paulo Gorski, e que contou com uma apresentação especial na programação da FLIPMais, durante a Feira Literária de Paraty; além da criação de um oficial do arquiteto: http://www.vilanovaartigas.com  Por isso, o blog hoje também presta uma homenagem a esse que é um dos grandes mestres da arquitetura moderna brasileira.



Nascido em Curitiba, no Paraná, João Vilanova Artigas formou-se engenheiro-arquiteto pela Escola Politécnica de São Paulo, em 1937, e veio a se tornar um dos principais representantes da escola paulista. Apesar de ser mais conhecido por seus projetos brutalistas, como o prédio da faculdade de arquitetura da USP (FAUSP) ou o estádio do Morumbi, sua obra reúne projetos diferentes entre si, o que revela uma multiplicidade de influências e um amadurecimento do arquiteto ao longo de sua trajetória.

Enquanto a escola carioca acompanhava de perto os passos de Le Corbusier, em um primeiro momento, Artigas foi profundamente influenciado pela arquitetura orgânica do americano Frank Lloyd Wright.

A influência de F.L. Wright na arquitetura de Vilanova Artigas (1938-1944)


Vilanova Artigas entrou em contato com a arquitetura de Wright nos anos 40, através de revistas americanas que chegavam ao Brasil.  Ele admirava o modo como Wright percebia a arquitetura. Wright costumava dizer que a terra e o processo construtivo estavam intimamente ligados à arquitetura.  A chamada “arquitetura orgânica” busca uma integração, uma simbiose do construído com a natureza e a diluição do objeto na paisagem; há uma nítida recusa da monumentalidade em seus projetos. Salienta-se um desejo de camuflar a arquitetura com o seu entorno. Daí vem a preferência do americano por matérias primas, como a pedra e a madeira, ou materiais resultantes de transformações primárias, como o tijolo e a telha, cujas cores e texturas se assemelham à natureza.

Frank Lloyd Wright também dava muita importância à qualidade do espaço interno.  Em suas obras, o interior imperava sobre o exterior.  Para ele, a concepção de um edifício deveria ser guiada pela disposição interna e as fachadas deveriam traduzir essa composição.

A influência da “arquitetura orgânica” de Wright pode ser encontrada em obras como a Casa Paranhos ou a “Casinha”, onde Artigas morou.

Fonte: http://projecaoconstrutiva.blogspot.com.br/2011/09/influencia-wrightiana-no-brasil-casa.html

No projeto para a Casa Paranhos(1942-1944) foi preservada uma fidelidade à concepção artesanal.  As janelas fixas na fachada seguem um plano contínuo, sempre muito próximas da linha do telhado.  As janelas de esquina contribuem para uma diluição da forma.  O espaço interno fluido se reflete nos volumes externos. A composição impressiona pela nitidez, pelo rigor mas também por sua leveza.



A Casinha. Fonte: http://www.vilanovaartigas.com/cronologia/projetos/casa-vilanova-artigas

Casinha (1942), primeira obra que o arquiteto projetou para si mesmo, o que lhe proporcionou uma liberdade que até então ele não tinha nos outros projetos.  Havia pouca diferença entre fachada principal, de frente e de fundos, rompendo assim com uma hierarquia entre partes.  O espaço interno dispunha de poucas divisórias, oferecendo assim uma fluidez entre os ambientes.

O envolvimento político de Vilanova Artigas


Artigas se associou ao partido comunista em 1945.  Dois anos depois, com a cassação do registro do partido, sua participação política torna-se ainda mais assídua, o que fomenta o seu compromisso social e o tom cada vez mais exaltado de seus artigos.

Em 1952, ele publicou o polêmico “Caminhos da Arquitetura”, onde contesta agressivamente os dois maiores arquitetos modernistas da atualidade: Frank Lloyd Wright, que tanto havia influenciado a sua arquitetura até então, e Le Corbusier.  Estes são taxados por ele como 'arquitetos de elite', criticados por produzir uma arquitetura voltada apenas para as classes dominantes.  Artigas encarava a filosofia de Corbusier como decorrente de um pensamento ingênuo, fundamentado na busca evasiva de um mundo utópico composto de formas puras, sem um real compromisso com a construção. Isso sem contar que se aproveitava da arquitetura de modo que esta servisse para reforçar a dominação do homem pelo capital.  Trata-se um documento que exala a tensão daquele momento político vivido pela esquerda, caracterizado por embates ideológicos do período da guerra fria e a campanha contra o imperialismo americano.



Fonte: http://vilanovaartigas.com/cronologia/periodos/1950-1959?page=3 


Artigas era um homem inquieto e acreditava que a única maneira da arquitetura proporcionar mudanças significativas para a sociedade seria através de alguma relação política.  Caso contrário, o conflito entre as classes jamais seria resolvido.  A política deveria, portanto, ser visada como um componente intrínseco na arquitetura e essa associação entre ambos era um atributo que todo arquiteto deveria reconhecer e almejar em seus trabalhos.  Com isso, Artigas passa a considerar em seus projetos a função social do arquiteto, sempre enfatizando a arquitetura como crítica à realidade.

A influência de Le Corbusier na obra de Vilanova Artigas - uma reviravolta no seu discurso (1945)


Suas convicções políticas fizeram com que o arquiteto levantasse uma série de questionamentos quanto a mensagem exprimida em sua arquitetura. Ao defender uma arquitetura majoritariamente artesanal, não estaria Artigas negando o progresso, algo tão fundamental para o desenvolvimento da nação brasileira? Estaria a submissão de suas obras à natureza demonstrando uma descrença na capacidade humana? Artigas faz mais do que simplesmente refletir sobre o significado de suas obras - Ele reavalia sua maior fonte de inspiração. 

A impessoalidade da geometria de Le Corbusier, por outro lado, corresponde a um anseio de democratização da forma moderna.  Similarmente, o incentivo de Walter Gropius à produção em larga escala viabiliza o acesso das massas a esses produtos.  Com isso, a tecnologia torna-se cada vez mais presente nas obras de Artigas. A arquitetura se afata da natureza e se aproxima do urbano e do processo industrial.

A partir de 1945, Artigas abandona de vez a sua submissão à natureza e dedica-se à compreensão e aprimoramento das técnicas construtivas visando materiais modernos.   Evidenciam-se em suas construções a sua atração pela crueza do material, as suas preocupações com o espaço interno e a unificação do mesmo com o sistema urbano, intercalando a organização racional com estudos psicológicos. Dentre suas principais características, predominam os volumes geométricos puros, sendo esses frequentemente coroados por uma cobertura em V e constituídos de espaço interno fluido que conferem ao conjunto um dinamismo através do jogo de rampas e níveis desencontrados.  Isso sem contar com a interação do espaço encerrado com o ambiente externo, realizado por meio de grandes vãos na fachada e a continuidade com o piso da calçada.

Projeto de Sua Segunda Casa(1949)


A segunda residência do arquiteto foi construída no mesmo terreno da “Casinha”.  Há um forte contraste entre as linguagens das duas residências.   Enquanto a primeira remete a um processo construtivo mais artesanal, através do uso de madeiras, tijolos e telhas cerâmicas, a segunda faz uso de grandes planos de vidro e formas geométricas.  A opacidade e reclusão da casinha se contrapõem à transparência da segunda casa. Há uma leveza nesta nova casa que atribui uma maior elegância ao conjunto, bem como uma maior pureza no volume.  O desenho invertido das águas do telhado contribui para a expressão formal da construção.
A continuidade visual é um aspecto importante no projeto. Há uma continuidade entre o ambiente interno e externo.  Além da continuidade visual pelas grandes esquadrias de vidro, há também uma continuação do piso graças à rampa de acesso.

FAUSP(1961-1969)


Foto: Jos Moscardi Fonte: http://www.vilanovaartigas.com/cronologia/projetos/faculdade-de-arquitetura-e-urbanismo-da-usp

A Faculdade de Arquitetura da USP é conhecida como um dos projetos mais importantes de sua carreira, considerada a mais bem sucedida experiência de conjugação entre interação espacial e social. Nesta construção, Artigas conseguiu reunir arquitetura, pensamento pedagógico e ideologia social, gerando uma composição em perfeita sintonia.  A tese central do projeto gira entorno da concepção do espaço como promotor das relações humanas.  Esse conceito contribui para a concepção da arquitetura em seu papel primordial de abrigo.





Foto: Nelson Kon Fonte: http://www.vilanovaartigas.com/cronologia/projetos/faculdade-de-arquitetura-e-urbanismo-da-usp

Trata-se de um volume de forma pura, fechado para o exterior nos pavimentos superiores mas que proporciona uma continuidade com a calçada no nível do térreo.  Suas grandes fachadas de concreto aparente revelam o seu processo construtivo pela marca das tábuas utilizadas como fôrma. A natureza hermética do volume visto do exterior contrasta com a amplitude de seu interior.  Ao adentrar o edifício, vislumbramos um espaço que se abre em todas as direções, seguindo pelas rampas que atravessam o edifício.

Embora este seja um edifício coberto, a faculdade não deixa de ser um espaço público. Ela pertence a cidade e essa noção é enfatizada em sua espacialidade.  Não há uma porta principal ou um único acesso propriamente definido.  É um espaço que se abre para vários lados e qualquer um pode entrar.  A ideia é que o movimento dos usuários caracterizasse o espaço por completo.



O Pavimento Térreo possui a maior área. Nele se desenvolve uma espécie de praça central interna que recebe luz diretamente da abertura zenital na cobertura.  Ou seja, a cidade é trazida para dentro da construção.  Um espaço agregador, que propicia o encontro, a convivência e a solidariedade.  Ele já foi inclusive palco de manifestações políticas, como vemos na foto acima.



Foto: Nelson Kon Fonte: http://www.vilanovaartigas.com/cronologia/projetos/faculdade-de-arquitetura-e-urbanismo-da-usp

Os pilares externos possuem um desenho distinto onde uma forma plana e triangular intercepta um volume piramidal tridimensional que se eleva do solo, como se a fundação estivesse ascendendo.  Esta solução faz uma alusão às forças da natureza ao provocar um encontro direto e inesperado entre forças contrastantes - a força da gravidade, que tende a puxar os corpos para a terra, e a reação inversa.

Sua morfologia bruta e pesada faz da FAUSP uma obra enraizada, próxima da terra e das pessoas, mas ao mesmo tempo transcendente, através da iluminação zenital e da hegemonia grandes dos vãos, ressaltando um pensamento utópico perante a situação do mundo.

Conclusão

A trajetória de Artigas apresenta saltos bruscos entre estilos. Apesar disso, certos princípios tais como a honestidade do material, a fluidez do espaço e a franqueza funcional são mantidos através da sua obra, o que revela um gradual amadurecimento.  Estas premissas revelam a sua ideologia política, algo que influenciou diretamente a escolha dos arquitetos cujas obras nortearam a sua produção, passando do organicismo de F.L. Wright, pelo racionalismo de Le Corbusier, e eventualmente chegando ao patriotismo visando obras nacionais como as de Niemeyer e Reidy.




4 de janeiro de 2015

Transarquitetônica de Henrique Oliveira | São Paulo

Inaugurada em Abril de 2014, a exposição “Transarquitetônica” trás uma intervenção do artista brasileiro Henrique Oliveira para o anexo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP). Ao artista, coube o desafio de criar um objeto que se articulasse com o espaço projetado pelo grande mestre da arquitetura brasileira, Oscar Niemeyer.

O objeto estabelece um percurso, envolvendo o indivíduo e explorando a relação entre o corpo e o espaço. Adentramos a obra por um único acesso que, em um primeiro momento, nos apresenta um espaço ortogonal de formas puras e paredes brancas; um racionalismo característico do modernismo, presente na obra do próprio Oscar. Conforme seguimos neste corredor, o espaço começa a ser desfragmentado, expondo a materialidade por trás do revestimento imaculado.  Vemos a crueza do bloco de concreto, seguido por tijolos e paredes de barro, revelando diferentes métodos construtivos, até que finalmente chegamos à característica estrutura de madeira de Henrique Oliveira.  Nesse momento, o percurso único e contínuo é destrinchado em múltiplos caminhos. Deparamo-nos com uma estrutura completamente labiríntica.  A distinção entre piso, parede e teto deixa de existir. O corredor torna-se um túnel, com emolduramentos orgânicos, variações de pés direitos e elevações no piso. Eventualmente, saímos por buracos na casca do objeto, de onde podemos então visualizar a escultura de fora. Num movimento de retorno às origens, as terminações da escultura se assemelham às formas de galhos e raízes. 

A seguir, uma sequência de fotografias que retrata essas transições.














Com previsão original de encerramento para o início de dezembro de 2014, a exposição foi prolongada até 25 de Janeiro de 2015 devido ao seu grande sucesso.  Quem estiver pela capital paulista nas próximas semanas, não deixe de conferir. Entrada gratuita.

1 de janeiro de 2015

Arte Contemporânea em São Paulo | A 31ª Bienal de Arte e o Hospital Matarazzo



No segundo semestre de 2014, a cidade de São Paulo recebeu duas grandes exposições de arte contemporânea - a 31ª bienal de arte de São Paulo e a exposição "Made by...Feito por Brasileiros" no antigo Hospital Matarazzo. Trago neste texto um olhar sobre as duas exposições.

31ª Bienal de Arte de São Paulo

Realizada entre 6 de Setembro e 7 de Dezembro de 2014, a 31ª edição da Bienal de Arte São Paulo foi sediada no pavilhão da bienal no Parque Ibirapuera. A mostra trouxe obras centradas fortemente em torno de temas políticos e religiosos.  O conteúdo impactante, por vezes até agressivo, fez com que, em muitos casos, o elemento estético da obra ficasse em segundo plano.  Nesta edição da bienal, a pesquisa formal abriu espaço para o protagonismo das mensagens de protesto.

Esse é o caso da obra “Espaço para Abortar”, do coletivo boliviano Mujeres Creando, logo a entrada da Bienal.  O conjunto de elementos rosados chama a atenção em um primeiro momento porém a grande força da obra está nos relatos de mulheres que sofreram um aborto.  Esses relatos podem ser ouvidos pelos headphones disponibilizados dentro de unidades que se assemelham a duchas, envoltas por véus também rosados.





A seguir, outras obras presentes na bienal.

Olhar para não ver, Bik Van der Pol. Projeto participativo.



Instalação de Juan Carlos Romero.



Retratos Icônicos Sem Nome, de Éder Oliveira. 

Suas pinturas são inspiradas em retratos de pessoas que aparecem nas colunas de jornais policiais, os ícones desconhecidos e esquecidos de nossa sociedade.


Histórias de Aprendizagem, Voluspa Jarba

Letters to the reader, de Walid Raad. 

As paredes emergem como ‘imãs de sombra perdidas’ da arte árabe.





Spear e outros trabalhos, Edward Krasinski.






Made by....Feito por Brasileiros no Hospital Matarazzo

A recorrência do tema político na arte contemporânea também pôde ser averiguada na exposição “Made by....Feito por Brasileiros”, realizada no antigo Hospital Matarazzo entre os meses de Setembro e Outubro de 2014. O prédio, fechado ha duas décadas, será reaberto após a reforma.  Nesse período de transição, suas portas foram abertas a uma invasão criativa destes artistas.  A mostra trouxe diversas obras de cunho político e crítico - o próprio ato de ocupação temporária já é simbólico por si só. A seguir, algumas das obras que mais chamaram a minha atenção entre a mostra.

À entrada, a magnífica intervenção do artista belga Arne Quinze.





Daniel Senise



Henrique Oliveira


Studio Drift



Maria Neponucemo



Artur Lescher



Daniel de Paula


Joana Vasconcelos

A exposição contou com duas obras da artista portuguesa Joana Vasconcelos. A primeira delas foi o "Piano Dentelle #2", um piano revestido em renda que na inauguração foi objeto de destaque na performance de Fafá de Belém. A cantora se apresentou com um vestido da mesma renda do piano. (ver vídeo abaixo)




A segunda obra foi a instalação “Valquíria Matarazzo” dentro da capela da Cidade Matarazzo.  O espaço foi ocupado por formas orgânicas têxteis revestidas por luminárias LED.