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17 de agosto de 2015

Pavilhões Serpentine | Londres


Anualmente, a Galeria Serpentine de Londres convida um arquiteto de renome internacional que (até então) não tenha uma obra construída na Inglaterra para projetar um pavilhão que será aberto ao público durante os meses de verão, no Kensington Gardens.  Neste período, são organizados shows, debates, palestras e demais eventos culturais que mantém esse espaço vivo.  A iniciativa começou no ano 2000, com um projeto da iraniana Zaha Hadid, e desde então já participaram arquitetos como Daniel Liebeskind, Toyo Ito, Oscar Niemeyer, Rem Koolhaas, Jean Nouvel, entre outros. Houve até mesmo cooperação entre artistas e arquitetos como foi o caso da edição de 2012, que contou com a parceria de Herzog e De Meuron com o artista Chinês Ai Weiwei.

Tive a feliz oportunidade de visitar alguns destes pavilhões: o pavilhão projetado por Frank Gehry(2008), o do escritório SANAA (2009), de Peter Zumthor(2011) e, mais recentemente, o projeto do escritório espanhol SelgasCano(2015). Neste texto, apresento um breve olhar sobre essas 4 construções temporárias.

Frank Gehry, 2008

Pavilhão de Frank Gehry(2008). Na foto da esquerda podemos visualizar a Galeria Serpentine no fundo.
Os projetos desconstrutivistas do canadense Frank Gehry são bem conhecidos por suas formas exuberantes e inusitadas. Este pavilhão não é uma exceção.  Achei interessante como, entre todos os pavilhões que visitei desta série, este me pareceu o mais perene, o mais permanente de todos. Os materiais aqui empregados são de alta qualidade, o que garantiu um acabamento bem executado e com aspecto duradouro.  Além disso, a implantação do objeto foi muito bem pensada: A composição do espaço organizava-se em torno de um vazio central, uma abertura que possibilitava a visão sobre a Galeria Serpentine ao fundo. Ou seja, o anexo temporário teve uma preocupação de se integrar com a construção existente do entorno. 

SANAA, 2009

Foto: Iwan Baan Fonte: www.archdaily.com


Aberto nas laterais, o Pavilhão Serpentine assinado por SANAA tinha como elemento principal uma cobertura sustentada por pilares finíssimos e esbeltos.  Esta era revestida por chapas de alumínio altamente reflexivas que refletiam o piso e o entorno.  Com isso, a sensação que nos dava é que o jardim adentrava o pavilhão.  Esse sentimento era enaltecido pela própria forma orgânica e sinuosa da cobertura, que estabelecia uma distorção discreta, dando uma impressão de continuidade entre o chão e o teto.  Para não dizer que não haviam paredes, foram criados pequenos núcleos que contavam com divisórias curvas de acrílico que não interferiam sobre a visão do jardim. O pavilhão oferecia refúgio da chuva mas não se tratava de um abrigo hermético - o visitante permanecia o tempo todo em contato com o jardim.

Peter Zumthor, 2011



O pavilhão de Peter Zumthor já foi tema do blog no artigo: Pavilhão Serpentine de Peter Zumthor . Em resumo, o arquiteto colocou uma fortaleza negra no meio do parque e, no seu interior, um jardim intimista.  A força da obra estava no contraste entre o exterior austero e a delicadeza e colorido das flores do jardim interno. A transição entre estes dois espaços era realizada através de um corredor escuro, com aberturas pontuais de luz. A composição não era muito apropriada para a realização de eventos, palestras, etc, mas fez bastante sucesso como café e espaço de descanso. Eu diria que o ponto alto do projeto foi como o arquiteto explorou a espacialidade e o contraste entre os diferentes momentos da obra.

SelgasCano, 2015




Fui lá numa típica manhã Londrina - nublada e chuvosa. Uma pena pois imagino que este pavilhão, com suas cores vibrantes, seja muito mais bonito e impactante sob a luz do sol.  Mas convenhamos que Londres não é propriamente conhecida pelos seus dias ensolarados. Aceitei a meteorologia e tentei aproveitar o passeio.

Fitas fazem referência as linhas do metrô de Londres


A criatividade e o colorido impressionam neste projeto. Inspiradas no dinamismo e na conectividade do sistema de metrô londrino, as fitas criam um percurso próprio, quase labiríntico, o que permite ao visitante contornar o objeto e adentrá-lo várias vezes por diferentes acessos. No interior, encontramos mesinhas e um ponto de venda de café.


Café no interior do Pavilhão Serpentine 2015



A arquitetura de pavilhões lida sempre com a questão da efemeridade.  Como a obra dura poucos meses, ela dispõe de um frescor e uma liberdade criativa muito maior do que a maioria das construções.  Ela pode ousar mais porque, se algo não der certo, não tem tanto problema pois será desmontada num futuro próximo.  Por outro lado, muitas vezes os acabamentos destes pavilhões deixam muito a desejar exatamente por isso. São feitos para uma montagem e desmontagem dinâmica.  Senti isso no projeto de SelgasCano.

O pavilhão possui poucas aberturas para ventilação e a vedação em plástico faz com que o interior se torne quente nesses meses de verão.  Além disso, a escolha do material, uma espécie de lona translúcida, não apresenta nada de muito inovador e acaba se assemelhando a muitas estruturas de tendas que encontramos por aí. Trata-se de um projeto que impressiona muito nas fotos mas pessoalmente não é tão espetacular.

A relação com o entorno imediato também foi pouco explorada - o encerramento do espaço mais se assemelha a um túnel.  As circulações em volta do objeto também direcionam o nosso olhar para dentro, não para fora.  Um movimento de admiração do próprio objeto, um olhar ensimesmado desconsiderando o contexto.








Corredores encerrados por fitas coloridas encerram o pavilhão




O Pavilhão de SelgasCano foi inaugurado no dia 25 de Junho, 2015 e permanece em exposição até o 
dia 18 de Outubro, 2015, no Kensington Gardens, em Londres. 

27 de julho de 2011

BARBICAN COMPLEX | O maior centro cultural da Europa

Nesta minha curta visita à capital inglesa, não pude deixar de conhecer o complexo de Barbican. Esse projeto foi uma grande referência para o meu projeto final para a facul. 
A poucos minutos a pé da London Bridge, o Barbican está situado numa região que foi fortemente bombardeada durante a segunda guerra mundial.  Seu projeto é assinado pelo escritório Chamberlin, Powel and Bon, um dos principais escritórios ingleses do pós-guerra. Sobre uma laje gigantesca, articulam-se usos variados - desde blocos residenciais a teatro, biblioteca, museu, galeria de arte, comércio, salas de espetáculo, estacionamento e serviços. Tem até um centro de bombeiros.























As torres residenciais vieram primeiro, datando das décadas de 60 e 70.  Torres que chegam a 42 andares.  O centro cultural em si só foi concluído em 1982.  Pelo o que pude perceber, o complexo incita uma divergência de opiniões.  Ele chegou a ser votado o ‘prédio’ mais feio de Londres em 2003 pelo “Grey London Poll”.  Já eu particularmente gosto muito dessa arquitetura brutalista, de peso.  Conseguir perceber vestígios do processo construtivo ainda impressos nas paredes...acho isso sensacional.  Muito parecido com o London National Theatre, outro edifício que eu também adoro.























Mas o Barbican vai além do feio e do bonito. O mais fascinante sobre ele é a sua escala, a sua intergração com a cidade, os seus múltiplos acessos, as conexões urbanas que ele gera.  Sob a sua laje, passam as linhas do metro além de vias  para ônibus e carros.  É muito interessante ver como as pessoas se apropriam do espaço sobre a laje e como, apesar do rompimento com o nível da rua, não temos a sensação de um distanciamento.  A laje parece um prolongamento da calçada a partir das suas rampas de acesso.  Criam-se então praças cheias de vida. 





















Nunca tinha visitado um híbrido tão complexo quanto esse. Acredito que ainda precisaria voltar muitas vezes para realmente compreender inteiramente o seu funcionamento.

19 de julho de 2011

SERPENTINE PAVILION | L’entre-deux de Peter Zumthor

Já há algum tempo que tenho vontade de vivenciar a espacialidade de um ‘ Zumthor’.  Vi essa possibilidade no seu pavilhão para a Galeria Serpentine, que fica exposto até o dia 16 de Outubro no Hyde Park, em Londres.
Fiquei com pena pois o pavilhão me pareceu mal acabado.  O revestimento mal feito, as paredes poderiam receber mais uma camada de tinta...  É bem verdade que pavilhões em geral são concebidos para serem temporários... Rápidos de montar e fáceis de desmontar. Sei disso.  Mas mesmo assim, fiquei levemente decepcionada. Considerando que se trata de um projeto do Zumthor, ao qual eu associo uma pesquisa tão grande em termos de material e tamanho rigor e preciosismo nos detalhes, vou admitir q nesse sentido a sua obra deixou um pouco a desejar.  Mas pronto, também não vou levar isso tão a sério.  Afinal, o Serpentine Gallery é praticamente uma exceção à sua obra.  Se não me engano, ele precisou até de um certo convencimento para aceitar fazer esse projeto.  Ou talvez estivesse assim porque era o fim de semana de inauguração.
Mas a alma de seu projeto, para mim, não está na forma externa, não está no jardim interno, mas no espaço entre, nos corredores que levam ao interior.  Não há portas, apenas vãos desencontrados que nos induzem a um percurso nesse entre dois muros. Aqui, a opacidade das paredes é iluminada pontualmente onde há aberturas. E o preto atribui um enorme peso a esse espaço tão estreito.  Um contraste gigantesco com o dia de sol que nos espera atrás dessas paredes. É lindo.

























Fico imaginando o que devem pensar os não arquitetos que visitaram o lugar.  Aqueles que não vieram atrás de uma 'aura Zumthor', mas apenas para conferir o pavilhão Serpentine desse ano, descompromissadamente, e se deparam com essa caixa preta gigante no meio de um belo parque.  Deve ter causado muitas aversões, sem dúvida.
Acho a arquitetura do Zumthor tão profunda, tão cheia de significado que, vê-la assim exposta dessa forma, me pareceu incoerente.  Perdeu um pouco o seu sentido, sua imensa força me pareceu gratuita nesse contexto, e por isso é compreensível imaginar porque muitos visitantes possam não gostar.























Mas, sendo o visitante arquiteto ou não, impossível visitar o pavilhão e não ficar em silêncio por um instante.  Impossível não sofrer algum impacto.