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21 de março de 2014

“Skogskyrkogarden”, o cemitério projetado por Gunnar Asplund | Estocolmo


A primeira vez que ouvi falar desse projeto foi em uma aula de projeto, na Faculdade de Arquitetura de Lisboa (FAUTL). O meu então professor tinha o hábito de narrar algumas de suas visitas a grandes obras da arquitetura. Aproveitava-se de sua experiência física nos locais para exemplificar os conceitos de projeto que queria nos passar. Essas suas histórias prendiam a atenção de toda a turma, pois mostravam de forma apaixonada como a arquitetura transcende os desenhos - Falar de arquitetura é falar de espaços. Dentre as suas contundentes descrições, a que mais me marcou foi aquela sobre a sua ida ao cemitério projetado pelo arquiteto Gunnar Asplund, em Estocolmo. 

Já se passaram muitos anos desde então e não me lembro de todos os detalhes sobre a sua visita. Guardei apenas algumas de suas percepções, dentre elas a sua descrição sobre os elementos que pontuam a paisagem e os materiais que demarcam a transição entre os ambientes. São percepções que me acompanharam durante a minha visita no ano passado.

Parece estranha a ideia de ir visitar um cemitério. O próprio programa já suscita uma série de considerações e reflexões existenciais, independente do desenho do projeto.  Conheço poucos cemitérios, mas os que eu já tive oportunidade de visitar me pareceram sempre tumultuados; as lápides são colocadas muito próximas umas das outras; a paisagem é bloqueada por um amontoado de esculturas; a circulação é feita por corredores finos, escuros e tortuosos. Esse retrato soturno é o oposto do que encontramos no “Skogskyrkogarden”, também conhecido como “The Woodland Cemetery”. O lugar é, acima de tudo, um parque. A apenas 20 minutos de trem do centro de Estocolmo, este local é um convite ao silencio e à contemplação.




Resultado de uma parceria entre os arquitetos Gunnar Asplund e Sigurd Lewerentz, o projeto levou o primeiro prêmio em um concurso realizado em 1915.  O cemitério foi construído aos poucos, sendo finalizado apenas na década de 40 e, em 1994, tornou-se parte dos patrimônios da Unesco.

Ao chegar ao local, deparamos-nos com um grande vazio em meio à cidade construída – o acesso é realizado através de um gramado em declive, livre de árvores e construções.  Tudo que avistamos a princípio é um caminho de pedras que segue a rampa linearmente, com uma largura adequada para a subida de um pequeno grupo de aproximadamente 4 pessoas lado a lado, e uma grande cruz, um ponto de fuga na linha do horizonte.  Estes dois elementos (o caminho e a cruz) humanizam a paisagem, trazendo as proporções do corpo do ser humano para o cenário.

























Crematório


A cruz no fim da ladeira pontua a paisagem. Ela nos direciona e, assim que a alcançamos, as primeiras construções se fazem presente. Estes são o crematório e as suas 3 capelas.  Estes edifícios são articulados por um vestíbulo, uma enorme cobertura que oferece abrigo contra as intempéries, embora não proteja completamente do frio por conta de suas aberturas laterais.  Este não encerramento permite um contato constante com a natureza. A escala monumental do vestíbulo nos apequena e nos eleva ao mesmo tempo, um sentimento enfatizado pela abertura zenital no meio da cobertura. Neste ponto, foi colocada uma escultura de três pessoas buscando uma ascensão – um gesto simples e dramático ao mesmo tempo.




Mesmo sob cobertura, a natureza se faz sempre presente.

Detalhe do acabamento do pilar e o desenho das luminárias

Ao contrário do vestíbulo, os espaços a volta, dedicados à cerimônia, são pequenos e encerrados nas laterais. São espaços intimistas, o que permite a família escolher quem entra no recinto e com quem eles querem compartilhar esse momento. Apesar disso, a relação com o exterior prevalece através da ausência de uma cobertura.

Abertura no muro serve de acesso aos espaços de cerimônia. Imagem captura detalhe do desenho do piso demarcando transição entre os espaços.

Espaços para a cerimônia. Encerrados nas laterais porém descobertos.

Do vestíbulo avistamos um pequeno lago, um morro e, em seu cume, um recinto fortemente arborizado.  Novamente um elemento que pontua a paisagem, atraindo o nosso olhar e chamando a nossa atenção.  Seguimos dessa vez pelo gramado. Ao chegar lá, o silêncio dos nossos passos sobre a grama é substituído pelo barulho dos pedriscos. Nesse momento, damo-nos conta do nosso peso, do movimento do nosso corpo no espaço, da nossa existência.  Esse é um dos únicos pontos no cemitério em que conseguimos avistar a cidade ao longe. Lembramos, portanto, que fazemos parte de algo maior.  Aqui foi também o primeiro lugar em que pude ver as lápides. O silêncio nos convida para uma interiorização.

Nota-se que os arquitetos não utilizam apenas elementos arquitetônicos, mas artifícios de paisagismo também.





Ao adentrarmos cada vez mais no cemitério, verificamos diferentes tipologias de capelas, cada uma permitindo a realização de cerimônias específicas. A organização dos setores com as lápides também varia. Em alguns casos, as lápides são verticais e se perdem entre as árvores gigantescas. Já em setores de paisagismo menos denso, as lápides são deitadas no chão como se pertencessem ao solo. Independente dessas variações, os túmulos são sempre bem discretos, com poucas demarcações, o que faz com que o conjunto todo se integre bem - os elementos fazem parte de um todo. A morte aqui não é retratada como algo sombrio a ser temido, mas manifesta-se como um processo natural, como o fim de mais um ciclo de vida. E para cada fim, há a esperança de um recomeço.


Capela





O ‘Skogskyrkogarden’ permite uma pluralidade de sensações. As intervenções pontuais trazem significado a um lugar aparentemente intocado; uma planície sem fim é interrompida por uma aglomeração de árvores; descampados são descontinuados perante fileiras de árvores dispostas linearmente; o céu, predominante no cenário, eventualmente some por completo por trás das folhas da mata densa.  São transições sutis que por vezes passam despercebidas. 

Ao criar essa multiplicidade de ambiências e experiências, os arquitetos humanizam a paisagem natural. Tal atitude projetual reflete os conceitos do filósofo Martin Heidegger, que utilizava a ponte como exemplo de um símbolo que revela a paisagem. Encerro esse texto com um extrato de seu ensaio "Construir, Habitar, Pensar" :

"A ponte se estende lépida e forte sobre o rio. Ela não junta as margens que já existem, as margens é que surgem como margens somente porque a ponte cruza o rio(...) Com as margens, a ponte leva ao rio as duas extensões de paisagem que se encontram atrás delas. Põe o rio, as margens e a terra numa vizinhança recíproca. A ponte junta a terra, como paisagem, em torno do rio." (Heidegger)


28 de fevereiro de 2014

Biblioteket de Asplund | Estocolmo, Suécia


Uma das visitas mais esperadas nesta minha ida a Estocolmo: a Biblioteca de Asplund. Lembro-me de estudar este projeto no quarto período da faculdade - o semestre em que tivemos que projetar uma biblioteca. Busquei inspiração neste projeto pois fascinava-me a ideia de ter o acervo de livros todo exposto aos visitantes, algo que nem sempre acontece nas bibliotecas. Aqui, o visitante é completamente rodeado pelos livros, de modo semelhante ao que acontece no Real Gabinete de Leitura Portuguesa, no Rio de Janeiro.

Real Gabinete de Leitura Portuguesa, no Rio de Janeiro. Foto: www.blogsemdestino.com

Ao avistar o objeto na paisagem, a primeira característica que sobressai é o seu tom alaranjado. A sobriedade de sua composição geométrica, suas formas puras e sua proporção são contrastadas pelo laranja vibrante que reveste todo o objeto. Sua predominância na silhueta da cidade é salientada pela sua escala e pelo fato do objeto estar elevado sobre um grande patamar. O acesso à biblioteca é realizado através de uma grande rampa que emoldura o percurso de entrada.




Inscrição do nome do arquiteto em sua obra edificada – algo que veio tornar-se obrigatório recentemente no Rio de janeiro através do Decreto Nº 38314 de 20 de Fevereiro de 2014.


O pórtico e as fachadas do edifício trazem influências egípcias no desenho dos seus ornamentos. Tais elementos atribuem dramaticidade e textura a uma fachada de linhas retas que, sem algum tratamento que a humanize, corre o risco de ser monótona e desinteressante.



O tom alaranjado é preservado no interior. O tom da madeira do mobiliário e o marrom da paginação de piso puxam para a cor laranja, estabelecendo uma coerência com o tratamento de fachada. É interessante perceber também que a paginação de piso no centro da rotunda replica o desenho da planta geral do edifício: círculos inscritos num quadrado representam a rotunda e o embasamento. Em outras palavras, o mesmo conceito prevalece através das diferentes escalas do edifício, seja no desenho da fachada, na implantação do edifício ou no detalhe do guarda corpo.




O livro é o grande protagonista do espaço. Ele assume o primeiro plano, dando vida ao ambiente. De fato, o espaço se adapta em função do mesmo. Ao mesmo tempo em que as estantes organizadas 360° a nossa volta nos apequenam, quando nos aproximamos delas, elas adquirem a proporção do corpo humano. A escala majestosa, amplificada pela planta circular, se adequam ao nosso tamanho através das passarelas, de suas escadas e corredores.  Estes caminhos nos levam às estantes onde todos os livros estão ao nosso alcance - não é necessário subir numa escada ou em um banco para alcançar o volume desejado.

Aos meus olhos, a grande beleza desse projeto jaz exatamente nessa relação que aqui conseguimos ter com os livros. Desfrutamos de uma completa liberdade para andar entre as estantes, folhear os livros, sentar no chão... Achei que fossem chamar a minha atenção por estar fotografando dentro da biblioteca mas isso em momento algum aconteceu. Eventualmente percebi que, contanto que você não roube livros ou incomode os demais, você está livre para desfrutar do espaço. Enquanto inúmeras outras bibliotecas possuem atmosferas austeras, controladas e labirínticas, a sensação que impera aqui é de leveza. Você se sente tranquilo para demorar o tempo que for e desfrutar do espaço. Sem dúvida, o desenho agregador de Asplund contribuiu para esta ocupação democrática do espaço.





2 de fevereiro de 2014

Kulturhuset | O Beaubourg de Estocolmo


Kulturhuset em Estocolmo, Suécia.
Tradução do Sueco: Kultur – Cultura / Huset - Casa

Au première regard...

À primeira vista, o ‘Kulturhuset’ me lembrou o Centro Georges Pompidou, o Beaubourg de Paris. Foi instintivo e não soube bem justificar o porquê dessa impressão visto que formalmente são construções completamente distintas. No entanto, a medida que fui conhecendo melhor o projeto, percebi que a minha impressão inicial não estava tão equivocada.  Achei interessante portanto traçar um paralelo entre as duas obras.

Imagem da praça em frente ao Centro Cultural Georges Pompidou, Paris.
Os projetos são contemporâneos. O Kulturhuset foi inaugurado em 1974, apenas 3 anos antes da inauguração do Beaubourg, e é assinado pelo arquiteto sueco Peter Celsing enquanto o Pompidou é uma parceria do italiano Renzo Piano com o inglês Richard Rogers.

O kulturhuset fica bem no centro de Estocolmo, em Sergels Torg, em frente à saída de uma das principais estações de metro/trem da cidade. Essa região de cruzamento de vias e de fluxo intenso é muito semelhante àquela que averiguamos em Les Halles, bairro onde se encontra o Beaubourg. Essa proximidade com os grandes eixos viários da cidade exerce uma forte influência em ambos os projetos. 

O fluxo se torna o núcleo estruturador do edifício, organizando os ambientes escalonados ao longo do seu eixo. A diferença é que no Beaubourg as escadas rolantes são locadas no exterior, compondo o desenho da fachada, enquanto no Kulturhuset elas estão no cerne do edifício, bem protegidas do frio.


Escada Rolante na Fachada do Centro Georges Pompidou
Kulturhuset - Escada Rolante no interior compõe o eixo central do edifício
 

A Suécia é muito fria para verificarmos uma ampla vivência dos espaços públicos abertos. No início do outono, a temperatura já chega a 0 grau à noite e fica em torno de 10 graus durante o dia. Como se trata de uma edificação pública coletiva, o kulturhuset assume então a função da praça pública. Encontrei lá pessoas jogando xadrez, lendo o jornal, tomando um café, apreciando a vista, todas atividades que poderiam ser desenvolvidas numa praça, sendo que aqui elas estavam protegidas do frio.


Espaços comuns do Kulturhuset
As exposições e os espetáculos são todos pagos, porém o acesso ao edifício é gratuito e não há restrições para a utilização dos espaços comuns.  Há uma grande midiateca que fica aberta também. Um espaço público permeado de cultura incentiva a leitura e o ensino além de oferecer um espaço para o descanso, qualidades que também verificamos no Centro Pompidou.

Conceitos Arquitetônicos

Centro Georges Pompidou - Os dutos das instalações são trazidos para a fachada, caracterizando a morfologia do museu.
Janelas em Fita, estrutura de concreto aparente e traços retos - um edifício tipo do movimento moderno.

Em termos morfológicos, os edifícios são antagônicos. O Pompidou emerge como um ícone do movimento pós-moderno 'high tech', enquanto o Kulturhuset preserva traços fortemente modernos (estrutura de concreto aparente, janelas em fita, formas puras e linhas retas). Contudo, como equipamento urbano, ambos desempenham papeis semelhantes - os objetos se impõem como articuladores do espaço urbano. Além da previamente assinalada conexão com o anel viário, a implantação afastada do entorno permite a criação de uma praça em frente ao edifício. Esse gesto possibilita avistar o objeto a distância, além de gerar um espaço congregador a céu aberto.

Praça em frente ao Beaubourg, em Paris.

Praça rebaixada em frente ao Kulturhuset, nivelada de acordo com a estação de trem. O acesso à estação é feito sob a galeria do lado esquerdo da foto.
Praça pública permite a realização de inúmeros eventos tais como campeonato de snowboard.