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18 de novembro de 2015

Bienal de Arte 2015 | Veneza

Obra de Chiharu Shiota no Pavilhão Japonês
Sob a curadoria do nigeriano Okwui Enwezor, o tema da bienal de arte de Veneza deste ano foi “All the World’s Futures”.  Durante a minha passagem relâmpago pela cidade, eu não consegui ver toda a bienal, que além de incluir a mostra no ‘arsenale’ e os pavilhões de mais 29 países no ‘giardino’, ainda conta com uma série de exposições paralelas espalhadas pela cidade. Para visitar a bienal com calma, eu diria que pelo menos dois dias seria o ideal.  Nesta minha visita, priorizei a visita aos pavilhões do giardino.  Faço aqui uma seleção dos 5 melhores pavilhões deste ano e uma breve descrição de cada um.

 Pavilhão Japonês



O pavilhão do Japão trouxe uma intervenção da artista Chiharu Shiota, japonêsa radicada em Berlim.  Sob o nome “The Key in the Hand” (A chave na mão), a instalação era composta por três elementos distintos: a chave, a canoa e a linha vermelha. A chave e a canoa simbolizam a memória: a chave porque ela liga as pessoas umas às outras e a canoa porque ela liga as pessoas aos lugares.  As linhas vermelhas surgem como fio conector, ligando estes dois elementos entre si.  O desenho formado pelas linhas vermelhas gera um corredor emoldurado, uma espécie de túnel. As chaves entrelaçadas ao longo das linhas foram coletadas pelo artista em viagens por diferentes países.  Em sua essência, a obra fala sobre tempo e memória.  Uma instalação que nos envelopa por completo. O resultado é sensível e contundente.

Chaves coletadas pelo mundo

Túneis criados pela rede de linhas vermelhas

Pavilhão Escandinavo (Noruega, Finlandia e Suécia)


Intervenção de Camille Norment assume a forma de molduras, que se assemelham às esquadrias do pavilhão.


Belíssimo exemplar de diálogo entre arte e a arquitetura.  O que averiguamos na intervenção de Camille Norment para o pavilhão da escandinavia é praticamente uma simbiose entre a arte e a arquitetura.  A artista criou molduras com dimensões semelhantes às esquadrias do edifício. Ela então dispôs essas molduras próximas das fachadas envidraçadas, porém inclinadas, amontoadas umas sobre as outras como se estivessem jogadas.  Entre elas, verificamos ainda pedaços de vidro estilhaçados pelo chão.  Em alguns casos, as arestas destas molduras jogadas se alinham com a estrutura das janelas do pavilhão. Adquirimos então a impressão de que estas molduras, que foram ali colocadas, surgem do próprio edifício. Essa disposição nos dá a impressão de que elas estiveram lá o tempo todo, que realmente fazem parte do conjunto. Com isso, a nossa percepção do edifício e de seus limites é modificada.  Ao mesmo tempo em que temos uma sensação de revolta ao nos depararmos com essas estruturas quebradas, a semelhança das molduras com o edifício transmite uma sensação de harmonia no conjunto.  A obra gera uma tensão e uma harmonia simultaneamente.


Molduras se assemelham às esquadrias do prédio, há uma harmonia entre a inserção e o existente.
Ao adentrarmos mais no interior do pavilhão, nos afastamos dessas molduras anguladas e chegamos a um espaço vazio, sem barreiras físicas, mas com alto-falantes gigantescos que se projetam do teto.  Aqui, a ambiência não é mais criada por barreiras ou elementos físicos, e passa a ser criada apenas pelo som.  Ultrapassando as primeiras barreiras, adentramos um espaço de contemplação.

Som cria a ambiência no interior do pavilhão

Pavilhão Francês



Céleste Boursier-Mougenot trouxe uma árvore que se move para o pavilhão francês.  A artista criou uma simbiose entre a natureza e a máquina. Deparamo-nos com uma espécie híbrida, fruto da natureza com a intervenção humana.  A árvore cinética foi colocada no ambiente central do pavilhão, sob uma claraboia.  Os ambientes ao redor tiveram o seu chão coberto por um estofado macio (que à primeira vista parece feito de pedra) para que os espectadores possam sentar e relaxar, contemplando a árvore no centro.  Além dos estofados, essas salas possuem alto falantes que ampliam o som do motor que move a árvore.  Ou seja, aqui, o zumbido gerado pela tecnologia é o ruído constante que transmite a paz e cria uma ambiência quase meditativa.  A serenidade que as pessoas buscam na natureza são recriados aqui pela tecnologia.

Pavilhão Holandês




O pavilhão holandês seguiu uma tendência que eu particularmente gosto muito e considero inclusive muito pertinente ao momento atual.  Como falei no post anterior, a Expo Universal de Milão deste ano trouxe o tema de alimentação.  Em sintonia com essa discussão, o artista Herman de Vries, em sua mostra intitulada “to be all ways to be”, reúne obras que apresentam materiais e alimentos em sua essência.  Entre elas encontramos uma série de quadros com pigmentos de diferentes países, uma série de paisagens constituídas a partir de ramos de trigos, uma composição de botões de rosa seca expostos no chão e uma coleção de foices, simbolizando o movimento, manipulação humana da terra.  O interessante desta mostra é que ela traz ao espaço expositivo elementos muito ligados a terra, reforçando essa crescente consciência de contato e retorno a natureza, a importância de uma postura cada vez mais sustentável.   A obra de De Vries ressalta a união e, ao mesmo tempo, a diversidade entre estes elementos.  As nações se unem em suas semelhanças, porém também em suas diferenças, suas particularidades e complementariedades.


Composição com botões de rosa seca




Quadros com pigmentos de diferentes países
Paisagens constituídas a partir de ramos de trigos

Pavilhão Romênia




Em uma expo de soluções high tech e obras que exploram a espacialidade, uma série de pinturas parece algo do passado, ‘out-of-date’. De fato, a pintura já foi muito explorada ao longo da história da arte e, por ser uma linguagem tradicionalmente estabelecida, é mais difícil de inovar nela. Não é de se surpreender, portanto, que as pinturas estão se ausentando das mostras de arte contemporânea, ou pelo menos, já não ocupam o papel central. Por isso mesmo, a atitude do pavilhão da Romênia consegue ser ao mesmo tempo corajosa e despretensiosa. 

O pavilhão reúne 20 quadros do artista Adrian Ghenie, que olha os desenhos e os estudos de Charles Darwin sobre um prisma considerando a história do século 20.  O resultado é uma coleção bela e contundente, retratando figuras históricas marcantes (como Hitler, Lenin, van gogh...), protagonistas e anti-heróis num contexto abstrato e distorcido.

Bônus:

Pavilhão Finlandês

Construído em 1956, o pavilhão finlandês foi idealizado como uma estrutura temporária só para a exposição daquele ano.  O pavilhão permanece desde então. Projetado por Alvar Aalto, o pavilhão é composto por uma estrutura de madeira e foi inteiramente confeccionado na Finlândia.



Pavilhão de Israel

Tsibi Geva faz uma intervenção que explora um tema recorrente de sua obra – a ideia do lar, do corpo e do cotidiano.  Sob o tema ‘arqueologia do presente’, o artista utiliza objetos do cotidiano e faz uma intervenção que vai além dos limites físicos do pavilhão israelense.  Ele cobriu as fachadas com pneus de borracha, e no interior cobriu as paredes com elementos que vão desde eletro-domésticos e esquadrias a caixas de papelão.  Além dessa composição, há também pinturas.




Pavilhão Húngaro

A mostra “Sustainable Identities” de Szilárd Cseke traz uma instalação que ocupa todo o teto do pavilhão.  O visitante passa por baixo de uma estrutura de tubos de PVC com esferas internas que ficam se locomovendo a partir de ventiladores.  O movimento dessas bolas representa a transitoriedade das coisas e o movimento das pessoas.  Um assunto pertinente sobretudo nesse momento de discussão política acerca da imigração.




A Bienal de Arte de Veneza é uma excelente oportunidade para se familiarizar com obras de artistas de outros países que não conhecemos, muitos dos quais que já obtiveram algum reconhecimento nos seus países, mas nem sempre adquiriram status de reconhecimento internacional.  É interessante ver o que está sendo produzido e discutido no cenário artístico e cultural de outros países. A mostra segue em Veneza até o dia 22 de Novembro.

29 de outubro de 2015

Exposição Universal 2015 | Milão



A Itália recebeu este ano a Exposição Universal, um evento mundial que reúne diversos países. O tema desta edição foi “Feeding the Planet: Energy for Life”, e contou com mais de 140 participantes. Além de apresentar uma exposição dentro do tema, os países são convidados a construírem pavilhões próprios.  Dado o caráter efêmero da maior parte das construções, o que encontramos são projetos ousados e inovadores.  Mesmo que você não visite todas as exposições, só de ver a arquitetura dos pavilhões já é uma experiência fascinante.

Detalhe Pavilhão Japonês.

Foto Pavilhão Estônia. Projeto: Kadarik Tüür Arhitektid.



Foto Pavilhão Chile. Projeto de Cristián Undurraga.



Inaugurada no dia 1 de Maio, a mostra segue até 31 de Outubro. Nesta edição eram esperados mais de 20 milhões de visitantes, podendo chegar a um máximo de 250 mil por dia. Considerando esses números, não é de se espantar a imensidão das filas.  Tentei visitar o pavilhão do Japão, um dos mais cobiçados do evento.  Cheguei lá às 9 da manhã e, ao alcançar o pavilhão japonês, o tempo de duração da fila de espera já era mais de 7 horas(!).  Como só estive um dia no evento, não quis perder tempo em filas longas demais e organizei o meu percurso para conseguir ver o maior número de pavilhões interessantes possível.  Apresento aqui um resumo de alguns que visitei:

Pavilhão da Russia








Nossa primeira parada. O pavilhão russo, projetado pelo escritório SPEECH, apresentava um projeto imponente, cuja forma mais se assemelhava a de um barco.  Por baixo de uma gigantesca estrutura em balanço foi aplicado um material metálico altamente reflexivo que permitia às pessoas se verem espelhadas no teto antes de entrar na exposição.  Nas laterais, uma composição de ripas de madeira.

Pavilhão Marrocos









O pavilhão marroquino foi projetado pelo OUALALOU+CHOI. O projeto praticamente nos transfere para a ambiência dos desertos do Marrocos. O projeto tira partido da cor e textura terrosa do adobe em sua composição.  Há rasgos que permitem a entrada de luz pontualmente, dando um toque especial para o espaço interno.  

Pavilhão Estados Unidos


Fonte: http://www.buildingsexpo.com/


O pavilhão dos Estados Unidos é um projeto de James Biber.  O acesso e os espaços internos foram concebidos considerando um grande número de visitantes.  Com isso, não pegamos fila alguma e conseguimos entrar direto. Além dos espaços amplos, o projeto do pavilhão apresentava uma imensa horta vertical na sua fachada lateral.  As hortas foram plantadas sobre painéis que se movimentavam, abrindo e fechando repetidamente. Um espetáculo.

Hortas verticais na lateral do Pavilhão dos EUA.




No último pavimento, um grande terraço com um bar coberto por uma estrutura metálica e vidro. O vidro possuía um filme que ficava alternando de cor. 



Pavilhão França




Este foi o meu pavilhão preferido.  Por se tratar de uma estrutura temporária, os autores do projeto – o escritório Studio X-TU, em parceria com o Studio ALN Atelien Architecture e o Studio Adeline Rispal - utilizaram uma estrutura leve de madeira que pode ser facilmente montada e desmontada.  A forma do edifício faz referência a elementos orgânicos enquanto a decoração interna (utilizando elementos como pratos, panelas, etc) remete aos tradicionais mercados franceses.  A exposição complementava bem essa ambiência, falando sobre os atributos da dieta francesa (que recentemente tronou-se um patrimônio da unesco) e os avanços na agricultura do país.

Para finalizar a visita, na saída tinha uma autentica ‘boulangerie’ francesa que produzia e vendia baguettes, croissants e outras delícias típicas, trazendo o aroma do pão francês para o espaço.




Pavilhão Reino Unido





Projetado pelo artista britânico Wolfgang Buttress, o pavilhão do Reino Unido falava sobre as abelhas, trazendo descobertas feitas em pesquisas conduzidas pela universidade de Nottingham Trent. Antes de adentrar o pavilhão o visitante cruzava um jardim labiríntico cuja planta reproduz a forma hexagonal característica das colmeias.  Após essa primeira parte, adentramos uma sala que apresentava a pesquisa e em seguida subimos para entrar na grande instalação metálica que reproduz o ambiente da colmeia.  No interior, pequenas luminárias se acendem alternadamente, reproduzindo os estímulos aos quais as abelhas são submetidas. O visitante é convidado a vivenciar sensorialmente o ambiente das abelhas.

Pavilhão Brasil


Foto: Fernando Guerra. Fonte: www.archdaily.com.br




Projeto resultado de uma parceria entre os escritórios Studio Arthur Casas e o Atelier Marko Brajovic.  A estrutura metálica sustenta uma imensa rede sobre a qual os visitantes podem caminhar. O aspecto lúdico do pavilhão é um grande atrativo para os visitantes.

Histórico e edições passadas


Crystal Palace, projeto de Joseph Paxton, sediou a primeira Expo Internacional em Londres.
Fonte: http://www.pavilon-expo2015.cz/ 
A primeira edição da Exposição Universal aconteceu em 1851, em Londres. A intenção sempre foi de promover uma troca cultural e científica entre nações, além da criação artística e arquitetônica.  A intenção é deixar legados para as cidades que sediam o evento, como foi o caso da Torre Eiffel, em Paris (construído para a Expo de 1889), e o Atomium em Bruxelas (1958), entre outros.

A Expo reúne nações em uma preocupação com o futuro da humanidade, algo que se reflete nas escolhas dos temas. Trata-se de um encontro de paz onde cada país traz o que tem de melhor e há uma troca visando o bem comum.

8 de novembro de 2014

Biennale di Venezia 2014 | Fundamentals

“Architecture is a strange mix of obstinate persistence and constant flux”. Koolhaas



Com curadoria do arquiteto Rem Koolhaas, diretor do OMA, a bienal de arquitetura de Veneza deste ano foi organizada sob o tema ‘Fundamentals’, ou ‘Elementais’, trazendo o foco sobre os elementos básicos da arquitetura (a janela, a porta, o teto, a parede, a varanda, etc.).  Elementos utilizados em construções pelo mundo inteiro, sendo que pouco é discutido a cerca dos mesmos.  Dificilmente o arquiteto interrompe o ato de projetar para contemplar sobre cada um.  Como a essência deles nunca é colocada em questão – eles simplesmente são – é válido afirmar que muitos arquitetos desconhecem o histórico e evolução destes elementos. Mais do que isso:  os arquitetos trabalham a partir de um imaginário estático e consolidado, sem considerar que eles estão em constante transformação e inovação. 

 Koolhaas diz que cada elemento possui um DNA próprio.  O objetivo da mostra é analisá-los individualmente e destrinchar o seu DNA, compreender a sua memória, entender como estes elementos chegaram aos seus estados atuais e questionar para onde eles estariam caminhando.


A exposição é resultado de uma pesquisa desenvolvida por alunos da Harvard Graduate School of Design.  Dentro deste conceito de resgate histórico, a primeira sala da exposição é dedicada às grandes obras teóricas da arquitetura.  Aqui encontramos extratos e exemplares das publicações de Vitruvius, Leon Alberti, Eugéne-Viollet-Le Duc, Adolf Loos, Le Corbusier, entre outros. Nesta introdução, deparamo-nos também com uma projeção com recortes de cenas do cinema, na qual os elementos básicos da arquitetura aparecem em primeiro plano.  Essa montagem demonstra como um entendimento sobre estes elementos vai muito além dos interesses da arquitetura, permeando outras áreas do saber.




Sigo para descrever alguns dos elementos analisados na mostra:

Teto
Os tetos são classificados em dois tipos: sólidos ou ocos.  O teto sólido é a parte de baixo do piso do pavimento imediatamente superior.  Ele não concilia nada por trás, sendo considerado uma solução mais ‘honesta’.  Já o teto oco – representado pelo forro – trás uma nova e misteriosa tridimensionalidade a este elemento. A solução do teto oco ganhou maior importância nos edifícios contemporâneos de grande escala, sobretudo pela sua capacidade de conciliar os dutos de instalações e equipamentos.

Teto como ornamento
Teto Funcional
A Janela
Mais do que uma conexão visual entre ambientes e o dentro/fora, a janela pode ser um ambiente por si só; ao exemplo das “baywindows”, seus parapeitos servem como apoio ou assento.  Sua transparência varia e pode ser articulada a outros elementos que filtram a interação entre os espaços, como cortinas, persianas, venezianas.   Com o advento da arquitetura moderna, as premissas das fachadas livres de estrutura e as janelas em fita, o vidro tornou-se principal componente das janelas, tomando conta por completo do vão emoldurado.  O mesmo ocorre com as esquadrias dos edifícios contemporâneos.  O vidro oferece transparência, ou seja luminosidade para o espaço, e ao mesmo tempo total encerramento e controle térmico.


As múltiplas formas das janelas
Teste de desempenho e durabilidade das esquadrias
Fragmentos - As peças que compõem a esquadria
Corredor
Originalmente associado à figura do corredor, que corria de um lugar ao outro para entregar mensagens, o conceito de percurso foi eventualmente incorporado pela arquitetura.  O corredor tornou-se um elemento de organização espacial, sobretudo após o modernismo, muito associado à ideia de escape.  Hoje, o corredor voltou a extrapolar os limites da arquitetura, abrangendo também o urbanismo através dos corredores de transportes e canalizadores de fluxos. 



Fachada
Apesar de estar associada às noções de desenho e estilo, a fachada talvez seja o elemento arquitetônico que mais se submeta às influências dos avanços tecnológicos e do contexto histórico no qual se insere.  A fachada é o filtro absoluto entre o dentro e fora, influindo sobre a luminosidade, o controle da temperatura interna, etc.  Ele também é o símbolo do empreendimento, a sua imagem caracteriza o edifício.

Fachada mediática
Fachada Cinética


Fachada Verde


Parede
A parede sempre se destacou por duas funções vitais: a estrutural e de divisória entre os espaços. Com os avanços tecnológicos, elas perderam a primeira função, tornando-se elementos mais efêmeros na composição.  Essas mudanças deram margem à criação do conceito de planta livre e o potencial de múltiplas composições espaciais.  Com isso, sua materialidade e dimensões gerais foram mudando, tornando-se mais leves e finas ao longo do tempo.








Porta
Além de moldura para passagem, a porta também representa a barreira, a tranca.  Assim como os demais elementos, ao longo das últimas décadas a porta também se associou a elementos alheios a ela com a finalidade de adquirir novas funções.  Hoje a porta pode abrir automaticamente a partir de sensores de movimento, ela pode detectar metais e até mesmo  realizar ‘body scans’. Um elemento associado ao controle devido à sua forte relação com o conceito de segurança.



Escadas
Muitas vezes designada um caráter utilitário, as escadas comumente são alocadas aos cantos dos ambientes, por vezes quase escondidas para não interromper ou interferir no espaço.  Historicamente, entretanto, as escadas possuíam uma importância icônica. Externamente, os degraus eram utilizados para criar um patamar elevado de acesso, afastando a entrada principal do nível da rua.  Hoje, com a preponderância de valores como a acessibilidade universal, o uso de escadas e degraus para a criação de patamares diferenciados é desestimulada.  A sua subida implica um esforço adicional, tornando-a um elemento antidemocrático dentro do espaço, apesar de ainda ser uma das soluções mais eficientes para as situações de escape. 

Varanda
A saliência da arquitetura.  Historicamente, a figura da varanda está fortemente associada ao ato político.  Uma rebeldia da arquitetura na qual o espaço íntimo avança rumo ao exterior.  Não é surpreendente que a varanda tenha se tornado instrumento para discurso político.  Com isso em mente, a exposição resgata centenas de fotografias de governantes de variados países em diferentes momentos históricos, todos se aproveitando da tipologia da varanda para o seu discurso. 
“without the balcony, there would have been no history”




Contraditóriamente, somos também convidados a adentrar outro tipo de varanda – aquela vernácular – que traz filtros ou ‘muxarabis’ que impedem a visualização de quem está fora para dentro, garantindo assim uma privacidade aos moradores.  Nesse caso, mais empregado nos programas residenciais, os moradores no interior podem observar o movimento da rua sem serem vistos.

Muxarabis - tipo de varanda que oferece privacidade a quem está por trás