Em 2015, a cidade do Rio de Janeiro completa o seu 450º aniversário. Com variados eventos comemorativos agendados para o ano que se
inicia, a cidade vive um momento de grandes transformações. Com as olimpíadas de 2016 se
aproximando, a cidade tornou-se um grande canteiro de obras.
Dentre as mais contundentes modificações está a demolição da
avenida perimetral, construída na década de 50. Um gesto que não afetou apenas
o município carioca, mas toda a sua região metropolitana. A demolição dividiu a opinião de técnicos e especialistas
pois, apesar de se tratar de uma infraestrutura em bom funcionamento, a sua
presença contribuía fortemente para o estado degradado do local no qual estava
inserida - a região portuária.
A demolição da perimetral ocorreu em etapas, começando em
novembro de 2013 e se estendendo pelo ano de 2014. Em setembro, estive no local
e pude registrar partes das ruínas que a demolição deixou. A seguir, uma
sequência de imagens que retratam essa paisagem de destruição.
Foi inaugurada no dia 24 de Maio a “Mostra Rio de
Esculturas Monumentais” na Praça Paris, no Rio de Janeiro. Em exposição, encontram-se obras de 17
artistas brasileiros. Além da beleza do desenho
paisagístico da praça, fortemente influenciado pela escola clássica francesa, me
encanta a vista do entorno - os bairros da Glória e do Centro. Nesse contexto,
as esculturas dialogam simultaneamente com duas escalas diferentes – aquela do solo
da praça e das grandes construções à distância. A seguir, fotografias de
algumas das esculturas.
A mostra permanece até o dia 20 de Julho e eu
particularmente recomendo uma visita ao entardecer, para ver a transição das
obras iluminadas pela luz do dia e pela iluminação artificial.
Jorge dos Anjos(Minas Gerais) – Composição Geométrica
Claudia Dowek (Rio de Janeiro) – Amanacy (título significa "Mãe da chuva" em Tupi Guarani)
José Petrônio (Alagoas) – Homens Grandes do Sertão
Claudio Aun(Rio de Janeiro) - Entrelaçamento quântico
Faleceu semana passada um dos grandes representantes
do movimento moderno no Brasil, o arquiteto José Filgueiras Lima, mais
conhecido como Lelé. Suas obras tornaram-se referência tanto pelo seu rigor técnico,
particularmente em relação à pesquisa de materiais e utilização de estruturas pré-moldadas, quanto por sua sensibilidade e adaptação ao clima local. Dentre as suas obras
mais emblemáticas, destacam-se os seus projetos para a rede Sarah de
Hospitais. Tive a oportunidade de
visitar uma dessas unidades em 2009 pouco antes de sua inauguração - o Centro Internacional Sarah de
Neuroreabilitação e Neurociências, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.
O Hospital é tido como um dos programas mais complexos
que se pode projetar dentro da arquitetura; os fluxos não podem se cruzar
devido ao risco de contaminação, a ventilação deve ser controlada, a gestão de
resíduos também deve que seguir uma série de procedimentos específicos, etc. Apesar dessa rigidez, o traço do arquiteto não é ofuscado pela busca da funcionalidade.
A beleza da composição jaz no contraste entre a força da repetição e a leveza das coberturas curvas.
Além do hospital, há um auditório para eventos e conferências médicas. Esse adota uma forma lúdica - quase uma gota - e possui uma clarabóia cuja abertura assemelha o movimento do desabrochar de uma flor.
Lelé se preocupava muito com o conforto térmico e a eficiência climática dos seus edifícios. Uma solução quer reflete essa preocupação, e se faz presente na maior parte dos espaços do hospital, é a existência de uma claraboia retrátil interna. Nos dias mais frios, essa é fechada, diminuindo o volume interno dos espaços e portanto a demanda de ar condicionado. Em dias mais frescos, essa cobertura é aberta, o que permite uma ventilação natural a partir dos 'sheds' presentes na cobertura superior.
Jardim interno refresca e alegra o ambiente
Acesso à deficiente físico
Cores lúdicas e espaços claros tornam o ambiente mais leve e aliviam o peso do tratamento. Estes fatores influenciam na recuperação e na autoestima dos pacientes.
Lelé participou do processo de construção de Brasília na
década de 50 e de fato, lá que foi construído o primeiro hospital da Rede
Sarah, em 1980. Hoje a rede está presente em seis cidades brasileiras.
Visitei recentemente a exposição sobre o arquiteto
Harry Seidler, no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. A
exposição, que foi encerrada no dia 06 de Abril, está agora a mostra no Rio de
Janeiro na sede do Instituto dos Arquitetos(IAB-RJ), no Flamengo. A exposição conta com vídeos de entrevistas e
documentários sobre o arquiteto, além de fotografias, maquetes e textos
descritivos sobre as suas obras.
Nascido de família judaíca e natural de Viena, o arquiteto se mudou para a Inglaterra em 1938, logo após a ocupação da Áustria pelos Nazistas. Foi
preso em 1940 pelas autoridades britânicas sob a acusação de ser um ‘inimigo estrangeiro’ e foi entáo deportado ao Canadá.
Conseguiu liberdade condicional para cursar arquitetura na Universidade de Manitoba,
em Winnipeg, seguindo depois para fazer mestrado em Harvard, onde foi aluno de
Walter Gropius e Marcel Breuer, com quem veio a contribuir em seu escritório em
Nova Iorque. Após alguns anos trabalhando com Breuer, recebeu uma proposta de
sua mãe para projetar-lhe uma casa na Australia. Ele aceitou e, logo antes de
se mudar definitivamente para a Australia, chegou a passar alguns meses no Rio
de Janeiro trabalhando com Oscar Niemeyer.
As Casas de Seidler
Fotos da casa 'Rose Seidler' que o arquiteto projetou para a sua mãe
A casa que projetou para a sua mãe apresentava de maneira
clara os princípios modernistas que Seidler defendia - traços retos, formas
puras, estrutura de concreto, telhado plano, janelas em fita e a importância do percurso. A casa chamou a atenção e Seidler logo começou
a receber novas demandas de projeto. Com isso, o arquiteto começou na década de
50 um trabalho de residências que se estendeu ao longo de toda a sua carreira.
Casa Bermann - o telhado curvo demonstra uma influência de
Niemeyer
Maquete da Casa Bermann
“Não existe, em todos os tempos, outro material além do
concreto armado que tenha o elemento de dar mais formas.” Harry Seidler
Casa de Julien Rose
Imagens do projeto para a sua casa com sua esposa Penélope
O material aqui aparece em seu estado bruto, muito
semelhante aos projetos de Le Corbusier
Seidler trazia ideias novas e desde o princípio se
posicionou de maneira forte dentro do mercado australiano. Considerava os
escritórios locais ultrapassados e se comprometeu a criar novos padrões de uma
arquitetura contemporânea progressista.
Além de seguir a metodologia que aprendeu com Gropius, sua arquitetura
trazia uma grande reflexão sobre a aplicação dos materiais, uma noção
adquirida pelo contato com Breuer, além de influências da linguagem estrutural
de Pier Luigi Nervi e uma fluidez formal de Niemeyer.
Com o tempo, surgiram projetos que iam além da escala das
residências unifamiliares. Além de habitações residenciais mutifamiliares, como
o Horizon Apartments(1998), Harry Seidler recebeu a comissão para projetar a
embaixada da Australia em Paris, o MLC Center(1975) em Sydney, cuja estrutura
foi concebida em parceria com o engenheiro Pier Luigi Nervi, o Australia
Square(1967) e o Clube de Hong Kong(1980-84).
Embaixada da Australia em Paris
Autralian Square
É interessante ver como Harry Seidler defendeu os
princípios modernistas ao longo de toda a sua
carreira. O arquiteto permaneceu sempre coerente em sua linha de pesquisa, defendendo o modernismo não apenas pela sua qualidade estética mas também por sua
metodologia e linha de pensamento. Mesmo assim, Seidler desenvolveu um conjunto de obras bastante variado, tanto em termos de programa quanto de formas - ele dificilmente repetia uma
mesma solução em diferentes projetos.
“A verdadeira arquitetura moderna não está morta como
alguns nos querem fazer acreditar. Mal começaram a explorar o potencial de sua
metodologia”.
Essa exposição foi uma boa surpresa. Pouco é discutido
sobre a arquitetura Australiana nas faculdades brasileiras e é interessante
descobrir outros desdobramentos do movimento moderno para além da Europa, EUA e
Brasil. A exposicao fica em cartaz no IAB-RJ, na Rua do Pinheiro, nº10, até o dia 16 de Maio.