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26 de junho de 2015

Fundação Iberê Camargo, Álvaro Siza Vieira | Porto Alegre


Um dos mais valiosos aprendizados que eu tirei do meu período de estudo em Lisboa foi a importância do percurso na arquitetura.  Aprendi a projetar considerando cada ângulo, cada perspectiva, cada ponto de vista no espaço.  Este recurso é desenvolvido com maestria no projeto de Álvaro Siza Vieira para a Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre.

Inaugurada em 2008, a Fundação foi a primeira obra do arquiteto português para a América do Sul. A oportunidade de conhecer o projeto surgiu no ano passado, quando eu estava de passagem pela cidade. Tiramos uma tarde para ir ao museu e fiz questão de percorrer cada canto minuciosamente, sem deixar qualquer detalhe passar despercebido.

A Fundação fica de frente para o Rio Guaíba, no bairro de Cristal, cerca de 8 km do centro da cidade. Não há construções em volta - o terreno é conformado por uma encosta ao fundo e a Avenida Padre Cacique a sua frente. Esta avenida é praticamente uma via expressa então, para quem vem de carro ou taxi, o desembarque deve ser feito no subsolo. Este movimento de descida gera, portanto, dois momentos distintos de visualização da obra. Num primeiro momento de aproximação, avistamos o museu na velocidade do carro - um elemento solitário e icônico na paisagem, com uma materialidade branca que brilha intensamente sob a luz do sol.

O segundo momento é durante a ascensão, subindo a escada do estacionamento para a calçada.  A cada degrau, a obra emerge um pouco mais.  Vemos o objeto por baixo, de um ponto de vista que jamais teríamos se não fossemos obrigados a fazer esse pequeno desvio.  A passagem pelo estacionamento oferece um pequeno intervalo.  O visitante desce para voltar a subir.




Há prédios que se parecem com outros. A forma incomum deste edifício faz com que seja difícil de associá-lo a outro objeto.  Sua morfologia não faz alusão a algo alheio a ela - ela é simplesmente o resultado da disposição dos seus próprios espaços, um ‘negativo’ dos seus percursos internos. Os braços que se desprendem da fachada são as rampas que ligam um pavimento ao outro. Ou seja, a própria espacialidade do museu é determinante para a sua morfologia.

Estes braços avançam sobre a entrada principal, criando uma segunda fachada por trás.  Neste movimento, estes elementos suspensos geram um vazio que se assemelha a uma rotunda descoberta. Com isso, verificamos a presença de uma espécie de vestíbulo que abraça o visitante. Este espaço propicia o ato de parar e olhar para cima, um momento de reflexão antes de entrar em contato com a arte.  Assim como o objeto se fecha em si mesmo, nós também somos convidados a um movimento de contemplação e interiorização antes de adentrar o museu.


Segunda fachada. Morfologia é um negativo dos percursos internos
Apesar da imensa esquadria de vidro na entrada, o hall de entrada é relativamente escuro.  Isso se dá por conta do pé direito baixo.  Mais uma vez, Siza trabalha as transições através da diferença no pé direito para criar diferentes ambientes.  Do vazio encerrado do lado de fora, entramos em um espaço baixo para então nos surpreendermos com o magnífico pé direito da sala geral de exposição – um vão que atravessa todos os pavimentos do museu e permite a visualização de todas as salas de uma só vez.


     
Vão que atravessa os pavimentos expositivos
Entre uma sala e outra não há corredores.  Você atravessa por dentro de uma sala para chegar à seguinte e a ausência de paredes permite que você veja o que te espera a seguir.  O único momento de encerramento é na subida de um pavimento para o outro.  Ao contrário do que costumamos ver em outros exemplos de circulação vertical, as rampas aqui não seguem paralelas entre si – cada uma tem o seu próprio percurso, o que gera as emblemáticas e inusitadas formas da fachada.  O contraste entre a amplitude das salas e o confinamento destas circulações tornam estes locais interessantes para uma exposição mais intimista. Dependendo da curadoria, as rampas podem se tornar um espaço expositivo alternativo.

De uma sala, é possível visualizar as obras da sala seguinte
Dentro do vão, circulações semi abertas.  Espaços de circulação sinuosos contrastam com o desenho ortogonal dos ambientes expositivos
Recuos nas rampas permitem espaços de exposição mais intimistas


Um olhar sobre si mesmo - Abertura na rampa permite visualização da fachada interna do próprio edifício





Como sempre, as obras de Siza são pontuadas por detalhes.  Aqui não é exceção.  As rampas herméticas e ensimesmadas oferecem momentos de abertura através de claraboias ou janelas de formas curvas e orgânicas.  Tais aberturas atribuem um tom lúdico a visitação.  Em meio à seriedade da exposição, um momento para olhar para fora e ver o céu, a luz do sol, o rio.  Um escape ao peso que a própria arte de Iberê Camargo é característica por carregar.



Esta foi para mim uma visita inesquecível.  Não foi a primeira obra de Siza que visitei mas esta é sempre uma experiência muito sensível.  Ao contrário de grande parte da produção contemporânea, sempre muito preocupada com a imagem, a arquitetura de Siza deve ser apreciada de modo multissensorial, através de múltiplos sentidos; a audição, o tato, a visão... Cada encontro de materiais, cada detalhe de desenho é extremamente rico e bem pensado.  Para mim, a arquitetura do Siza é poesia construída.







22 de fevereiro de 2014

Crônica sobre o fechamento de um Cinema



Nesta última semana, meu facebook foi bombardeado por artigos falando sobre a falência do grupo Estação de Cinema, no Rio de Janeiro. Fiquei muito triste com a notícia. O Grupo Estação é um marco para o Cinema Carioca. Com sua programação mais aberta e alternativa, aqui encontramos filmes estrangeiros interessantes, documentários, mostras e palestras temáticas que em outros cinemas de grande público jamais encontraríamos.  Sentirei saudades dos eventos do ‘Estação Odeon’, que misturam cinema e festa, tais como o Cachaça Cinema Clube ou a Maratona. Grande parte da mostra do Festival de Cinema do Rio também é projetada nas salas do Grupo Estação. Durante as semanas do evento, eu tento ir ao cinema quase todos os dias. Só no ano passado, assisti a 5 filmes numa mesma semana – uma verdadeira maratona cinematográfica. Fico me perguntando portanto: E agora? Onde irei assistir aos filmes que gosto?

Essa situação me lembrou o fenômeno que se alastrou por Lisboa nesses últimos anos de crise. Cinemas que eu muito frequentei durante a minha estadia na cidade – entre eles o tradicional Cinema King e o Cinema Londres – foram fechados. Pelo o que li, o Cinema Londres será transformado em uma loja de produtos chineses. Triste. Cogitou-se até fechar a Cinemateca Portuguesa. Logo a Cinemateca, vejam só! O lugar onde podíamos assistir a grandes clássicos por apenas 2 euros. Foi lá que conheci o cinema de Wim Wenders através do filme “Paris, Texas”, e foi lá em que tive a oportunidade de assistir “Psicose”, de Hitchcock, pela primeira vez na telona. Uma experiência maravilhosa! Sem contar com as ‘Sessões de Arquitetura e Cinema’ e, entre elas, a inesquecível palestra do diretor Manuel de Oliveira, promovida pelo meu então professor de projeto, José Neves.  Chegou a ser feita uma petição em defesa da Cinemateca, amplamente divulgada na internet.

Parece que nesses momentos de crise, os melhores lugares são os primeiros a fechar. Como aconteceu com a Modern Sound de Copacabana – o último reduto dos amantes de música e compradores de CDs. Mas a cidade segue em frente, e eventualmente nos adaptamos à sua ausência – É incrível e terrível a capacidade de adaptação do ser humano. Se assim for, o que nos restará é esperar que, quem sabe, algum dia surja um novo grupo para tomar o lugar do que não foi em frente e abrir um novo espaço para o cinema alternativo no rio e a para a formação do cinema carioca. Mas enquanto o veredito não sai(previsto para o dia 3 de Abril), ficamos na torcida e na mobilização em nome da permanência do Grupo Estação.

Foto do antigo Cinema King, em Lisboa (foto: http://diariodigital.sapo.pt/)
Entrada do antigo Cinema Londres (foto: http://cinemasparaiso.blogspot.com.br)


06 de Junho de 2014

Foi anunciado hoje o fechamento de mais um cinema de rua tradicional no Rio de Janeiro - o Cinema Leblon, da rede Severiano Ribeiro. Novamente,  a causa foi atribuída a uma crise financeira.  Inaugurado em 29 de Setembro, de 1951, o Cinema Leblon tornou-se um marco na paisagem carioca e deixará saudades.  Diante de mais essa notícia questiono-me: seria o cinema de rua um programa ultrapassado, ou inadequado, para as grandes urbes contemporâneas?


Imagens históricas do Cinema Leblon(fonte: rioquemoranomar.blogspot.com.br)

1 de agosto de 2011

SOUTO MOURA e a arquitetura portuguesa

Tive a oportunidade de voltar a Lisboa.  Conheci a Casa de história da Paula Rego, um novo museu de Eduardo Souto Moura, em Cascais. Acho a arquitetura portuguesa tão sensível e contundente. Ela me parece de poucas palavras. Não faz uso de grandes conceitos filosóficos em seu discurso, como percebo muito aqui na França, por exemplo.  Ela não se apóia em grandes imagens para enaltecer o produto final.  Ela é simples, porém rigorosa no seu desenho.  Já tinha percebido isso na temporada em que estive estudando por lá.  Eles tem uma verdadeira preocupação com a qualidade dos espaços e uma completa compreensão de todo o funcionamento do edifício.  Nada é gratuito e cada detalhe faz sentido no conjunto, desde a estrutura ao detalhe da maçaneta.
Lembro de uma conversa que tive com um amigo belga enquanto estudava lá.  Ele criticava essa arquitetura por considerá-la congelada no tempo.  Como se ela não tivesse evoluído além do moderno.  Concordo que as premissas básicas da arquiteutra portuguesa ainda sejam muito baseadas no moderno, mas ela está longe de ser retrógrada, ou mesmo óbvia.  Ela nos surprende nos seus percursos, o rompimento com os eixos, os emolduradamentos da paisagem, a relação entre o dentro e fora - e isso é muito forte no novo projeto do Souto Moura.



Há um momento na exposição em que de repente temos um canto com o pé direito rebaixado, em que muda o eixo de do percurso, apenas para contemplar o jardim externo.  O projeto pensa em cada ângulo, cada ponto de vista do observador.  É extremamente humano e singelo.























Todas os vãos de passagens estão nos cantos da sala, integrando-se com as paredes.  Não são buracos que parecem ter sido encaixados, mas vazios que fazem parte dos planos desde o momento de sua concepção.


A forma deste edifício é extremamente dramática.  Primeiro de tudo pelo uso do tom avermelhado, tão forte e feminino.  Sinto que na fachada podemos perceber logo essa essência tão íntima da pintora.  Quase um olhar para dentro da alma feminina. 
Apesar de uma delicadeza latente, as formas são também fortes e pesadas, quase ameaçadoras. Espelha um pouco da dura história de vida de Paula Rego e dos seus traumas do passado, que se fazem tão presente em sua obra. E o Souto Moura teve essa visão.
Tamanho é o seu respeito pelo existente, que o prédio foi concebido se adaptando à locação das árvores.  Durante a construção, elas foram removidas sem a sua aprovação.  Seu desespero foi tanto, que ele exigiu que elas voltassem depois todas para o mesmo lugar.
Além disso, o centro cria duas grandes chaminés, que fazem referência ao Palácio de Sintra(foto abaixo).  Uma arquitetura contemporânea que cria uma relação com a tradição e a história.















E essa atitude projetual está clara em todas as suas obras.
Estive numa conferencia do Souto Moura aqui em Paris recentemente, onde ele defendia essas mesmas ideias.  Uma abordagem enraizada no contexto e na problemática que o programa exige.  Uma preocupação com as entradas de luz e na hierarquia dos espaços.  Basicamente, é um conhecimento sobre o espaço na sua forma mais pura.  Nosso olhar não é desviado por formas espetaculares.  Elas não estão aqui para nos distrair.  Nossa atenção é focada no espaço e, por isso mesmo, ele chega a ser extremamente impactante.