27 de dezembro de 2014

Genius Loci | Exposição de Arte Contemporânea em Veneza


Obra de Anish Kapoor na entrada da exposição
Durante a Bienal de Veneza, há sempre uma série de eventos paralelos que ocorrem na cidade, desde exposições a mostras de teatro, cinema e dança.  Dentre estes, tive a oportunidade de visitar a exposição de Arte Contemporânea intitulada “Genius Loci”, termo em latim cuja tradução significa o “espírito do lugar”.

Para o arquiteto norueguês Christian Norberg-Schulz, o genius loci torna-se presente através da arquitetura e pela relação do indivíduo com o espaço: “Movendo-se através dos espaços, a pessoa pode frequentemente reviver as emoções relacionadas a eles de encontros anteriores, ou aplicar modelos de lugares anteriormente visitados. Estas emoções estão associadas ao visitante. No entanto, também fica claro que o próprio lugar tem um jeito dele, um estado emocional, independente do estado de espírito do visitante no momento do encontro. Isto se chama o sentido do espírito do lugar, genius loci”.

Nesta exposição, organizada entre os meses de Junho e Novembro de 2014 na Galeria Lisson do Palazzo Cavalli Franchetti, alguns dos maiores nomes da arte contemporânea foram convidados a produzirem obras e instalações relacionadas ao tema.  Entre os 14 artistas participantes estavam o indiano Anish Kapoor, o Chinês Ai Weiwei e a portuguesa Joana Vasconcelos. Abaixo, algumas fotos da exposição.


Richard Long
Richard Deacon, Gap 1-8
Tony Cragg, Hedge
Ai Weiwei, Tree


Spencer Finch
Daniel Buren, A White Triangle as a Mirror
Joana Vasconcelos, Glasshouse

Ai Weiwei, Forever (1179 Bicicletas)



8 de novembro de 2014

Biennale di Venezia 2014 | Fundamentals

“Architecture is a strange mix of obstinate persistence and constant flux”. Koolhaas



Com curadoria do arquiteto Rem Koolhaas, diretor do OMA, a bienal de arquitetura de Veneza deste ano foi organizada sob o tema ‘Fundamentals’, ou ‘Elementais’, trazendo o foco sobre os elementos básicos da arquitetura (a janela, a porta, o teto, a parede, a varanda, etc.).  Elementos utilizados em construções pelo mundo inteiro, sendo que pouco é discutido a cerca dos mesmos.  Dificilmente o arquiteto interrompe o ato de projetar para contemplar sobre cada um.  Como a essência deles nunca é colocada em questão – eles simplesmente são – é válido afirmar que muitos arquitetos desconhecem o histórico e evolução destes elementos. Mais do que isso:  os arquitetos trabalham a partir de um imaginário estático e consolidado, sem considerar que eles estão em constante transformação e inovação. 

 Koolhaas diz que cada elemento possui um DNA próprio.  O objetivo da mostra é analisá-los individualmente e destrinchar o seu DNA, compreender a sua memória, entender como estes elementos chegaram aos seus estados atuais e questionar para onde eles estariam caminhando.


A exposição é resultado de uma pesquisa desenvolvida por alunos da Harvard Graduate School of Design.  Dentro deste conceito de resgate histórico, a primeira sala da exposição é dedicada às grandes obras teóricas da arquitetura.  Aqui encontramos extratos e exemplares das publicações de Vitruvius, Leon Alberti, Eugéne-Viollet-Le Duc, Adolf Loos, Le Corbusier, entre outros. Nesta introdução, deparamo-nos também com uma projeção com recortes de cenas do cinema, na qual os elementos básicos da arquitetura aparecem em primeiro plano.  Essa montagem demonstra como um entendimento sobre estes elementos vai muito além dos interesses da arquitetura, permeando outras áreas do saber.




Sigo para descrever alguns dos elementos analisados na mostra:

Teto
Os tetos são classificados em dois tipos: sólidos ou ocos.  O teto sólido é a parte de baixo do piso do pavimento imediatamente superior.  Ele não concilia nada por trás, sendo considerado uma solução mais ‘honesta’.  Já o teto oco – representado pelo forro – trás uma nova e misteriosa tridimensionalidade a este elemento. A solução do teto oco ganhou maior importância nos edifícios contemporâneos de grande escala, sobretudo pela sua capacidade de conciliar os dutos de instalações e equipamentos.

Teto como ornamento
Teto Funcional
A Janela
Mais do que uma conexão visual entre ambientes e o dentro/fora, a janela pode ser um ambiente por si só; ao exemplo das “baywindows”, seus parapeitos servem como apoio ou assento.  Sua transparência varia e pode ser articulada a outros elementos que filtram a interação entre os espaços, como cortinas, persianas, venezianas.   Com o advento da arquitetura moderna, as premissas das fachadas livres de estrutura e as janelas em fita, o vidro tornou-se principal componente das janelas, tomando conta por completo do vão emoldurado.  O mesmo ocorre com as esquadrias dos edifícios contemporâneos.  O vidro oferece transparência, ou seja luminosidade para o espaço, e ao mesmo tempo total encerramento e controle térmico.


As múltiplas formas das janelas
Teste de desempenho e durabilidade das esquadrias
Fragmentos - As peças que compõem a esquadria
Corredor
Originalmente associado à figura do corredor, que corria de um lugar ao outro para entregar mensagens, o conceito de percurso foi eventualmente incorporado pela arquitetura.  O corredor tornou-se um elemento de organização espacial, sobretudo após o modernismo, muito associado à ideia de escape.  Hoje, o corredor voltou a extrapolar os limites da arquitetura, abrangendo também o urbanismo através dos corredores de transportes e canalizadores de fluxos. 



Fachada
Apesar de estar associada às noções de desenho e estilo, a fachada talvez seja o elemento arquitetônico que mais se submeta às influências dos avanços tecnológicos e do contexto histórico no qual se insere.  A fachada é o filtro absoluto entre o dentro e fora, influindo sobre a luminosidade, o controle da temperatura interna, etc.  Ele também é o símbolo do empreendimento, a sua imagem caracteriza o edifício.

Fachada mediática
Fachada Cinética


Fachada Verde


Parede
A parede sempre se destacou por duas funções vitais: a estrutural e de divisória entre os espaços. Com os avanços tecnológicos, elas perderam a primeira função, tornando-se elementos mais efêmeros na composição.  Essas mudanças deram margem à criação do conceito de planta livre e o potencial de múltiplas composições espaciais.  Com isso, sua materialidade e dimensões gerais foram mudando, tornando-se mais leves e finas ao longo do tempo.








Porta
Além de moldura para passagem, a porta também representa a barreira, a tranca.  Assim como os demais elementos, ao longo das últimas décadas a porta também se associou a elementos alheios a ela com a finalidade de adquirir novas funções.  Hoje a porta pode abrir automaticamente a partir de sensores de movimento, ela pode detectar metais e até mesmo  realizar ‘body scans’. Um elemento associado ao controle devido à sua forte relação com o conceito de segurança.



Escadas
Muitas vezes designada um caráter utilitário, as escadas comumente são alocadas aos cantos dos ambientes, por vezes quase escondidas para não interromper ou interferir no espaço.  Historicamente, entretanto, as escadas possuíam uma importância icônica. Externamente, os degraus eram utilizados para criar um patamar elevado de acesso, afastando a entrada principal do nível da rua.  Hoje, com a preponderância de valores como a acessibilidade universal, o uso de escadas e degraus para a criação de patamares diferenciados é desestimulada.  A sua subida implica um esforço adicional, tornando-a um elemento antidemocrático dentro do espaço, apesar de ainda ser uma das soluções mais eficientes para as situações de escape. 

Varanda
A saliência da arquitetura.  Historicamente, a figura da varanda está fortemente associada ao ato político.  Uma rebeldia da arquitetura na qual o espaço íntimo avança rumo ao exterior.  Não é surpreendente que a varanda tenha se tornado instrumento para discurso político.  Com isso em mente, a exposição resgata centenas de fotografias de governantes de variados países em diferentes momentos históricos, todos se aproveitando da tipologia da varanda para o seu discurso. 
“without the balcony, there would have been no history”




Contraditóriamente, somos também convidados a adentrar outro tipo de varanda – aquela vernácular – que traz filtros ou ‘muxarabis’ que impedem a visualização de quem está fora para dentro, garantindo assim uma privacidade aos moradores.  Nesse caso, mais empregado nos programas residenciais, os moradores no interior podem observar o movimento da rua sem serem vistos.

Muxarabis - tipo de varanda que oferece privacidade a quem está por trás

8 de outubro de 2014

Biennale di Venezia | L' arsenale Monditalia Scan


Inicio com este texto uma série sobre a Bienal de Arquitetura de Veneza em 2014. A bienal deste ano teve curadoria do arquiteto holandês Rem Koolhaas e permanece em exposição do dia 7 de Junho a 23 de Novembro deste ano, 3 meses a mais do que o habitual para uma bienal de arquitetura.  A mostra é dividida em diferentes segmentos principais e neste texto vou abordar a exposição “Monditalia”, que está atualmente exposta no Corderie Arsenale.



O pavilhão de l’arsenale abrigou nesta edição uma mostra dedicada inteiramente ao País sede da bienal – a Italia.  Traçando um retrato de norte ao sul do País, a mostra abordou temais variados passando pela imigração, a instabilidade política nacional, as ruínas do modernismo à evolução das discotecas de Milão.  Vemos uma Itália influenciada pelos interesses do mercado imobiliário e suscetível aos efeitos do turismo de massa, como ocorre com Veneza e Assis.  São ressaltados também os problemas de patrimônio, os desafios da preservação e as transformações trazidas pelas mudanças climáticas, tais como as fronteiras físicas na obra “Italian Limes”.



A mostra conta com painéis e vídeos apresentando pesquisas e estudos de caso, porém é o tempo todo acompanhada por projeções de filmes que ajudam a criar um imaginário do País.  Dentre eles, vemos cenas dos filmes “Le mépris” de Jean Luc Godard, “Roma” Frederico Fellini, “Caro diário” de Nanni Moretti, o “Deserto vermelho” de Michelangelo Antonioni , “Beleza Roubada” de Bertolucci, entre muitos outros. 



Para além do cinema, a exposição busca intercalar diferentes setores de arte – foram montados palcos que permitem a realização de espetáculos de dança, teatro e música no meio da exposição.



A seguir, destaco algumas das obras expostas:

Roma – San Giacomo Hospital – the ghost block of giambattista nolli

A obra propõe uma análise sobre as ruínas contemporâneas e o descaso com as instituições públicas.




Ground floor crisis - Primo Piano Patrimônio

Uma grande inundação nas cidades de Florença e Veneza em 1966 trouxe a tona o problema do pavimento térreo e a preservação do patrimônio nos centros históricos.  Esse movimento também elimina a separação entre o dentro/fora e o público/privado, dando margem a uma nova percepção de cidade - a cidade anfíbia.



Biblioteca Laurenziana de Michelangelo

“Michelangelo takes each architectural element and forces it into new shapes and new relationships” Rem Koolhaas.



I resti di uno miracolo

Panorama de fotografias de obras do modernismo italiano com questionamentos sobre o destino dessas edificações:



“As obras primas do modernismo italiano, construídos durante os prósperos anos das décadas de 50 e 60, produtos da ambição política industrial e econômica, refletem a pesquisa daquela época. Esses prédios encontram-se hoje em estado de abandono e negligenciados.  Isso traz um retrado da realidade italiano a cerca da:
- nascimento, vida e morte da economia italiana. Os ciclos;
-o sonho progressista dos arquitetos e engenheiros italianos,
- a qualidade inerente da pesquisa arquitetônica e construtiva,
- a (im)possibilidade do futuro da arquitetura
-nossa incapacidade de protegê-la
-nossa incapacidade de reutilizá-la
-nossa incapacidade de reciclar ideias
-o fato que construir algo novo é mais barato do que restaurar, construir é mais barato do que demolir
- a arquitetura tem uma vida curta e o arquiteto não é responsável pelo seu tempo de vida
- a realidade é mais forte do que a arquitetura
- a arquitetura moderna não se mostrou flexível o suficiente ao longo do tempo”

 Italian limes

Uma maquete com projeções mostrando as modificações das fronteiras físicas da Itália em relação aos países vizinhos em um contexto de derretimento das geleiras nos topos do Alpes, processo decorrente das mudanças climáticas.