8 de novembro de 2014

Biennale di Venezia 2014 | Fundamentals

“Architecture is a strange mix of obstinate persistence and constant flux”. Koolhaas



Com curadoria do arquiteto Rem Koolhaas, diretor do OMA, a bienal de arquitetura de Veneza deste ano foi organizada sob o tema ‘Fundamentals’, ou ‘Elementais’, trazendo o foco sobre os elementos básicos da arquitetura (a janela, a porta, o teto, a parede, a varanda, etc.).  Elementos utilizados em construções pelo mundo inteiro, sendo que pouco é discutido a cerca dos mesmos.  Dificilmente o arquiteto interrompe o ato de projetar para contemplar sobre cada um.  Como a essência deles nunca é colocada em questão – eles simplesmente são – é válido afirmar que muitos arquitetos desconhecem o histórico e evolução destes elementos. Mais do que isso:  os arquitetos trabalham a partir de um imaginário estático e consolidado, sem considerar que eles estão em constante transformação e inovação. 

 Koolhaas diz que cada elemento possui um DNA próprio.  O objetivo da mostra é analisá-los individualmente e destrinchar o seu DNA, compreender a sua memória, entender como estes elementos chegaram aos seus estados atuais e questionar para onde eles estariam caminhando.


A exposição é resultado de uma pesquisa desenvolvida por alunos da Harvard Graduate School of Design.  Dentro deste conceito de resgate histórico, a primeira sala da exposição é dedicada às grandes obras teóricas da arquitetura.  Aqui encontramos extratos e exemplares das publicações de Vitruvius, Leon Alberti, Eugéne-Viollet-Le Duc, Adolf Loos, Le Corbusier, entre outros. Nesta introdução, deparamo-nos também com uma projeção com recortes de cenas do cinema, na qual os elementos básicos da arquitetura aparecem em primeiro plano.  Essa montagem demonstra como um entendimento sobre estes elementos vai muito além dos interesses da arquitetura, permeando outras áreas do saber.




Sigo para descrever alguns dos elementos analisados na mostra:

Teto
Os tetos são classificados em dois tipos: sólidos ou ocos.  O teto sólido é a parte de baixo do piso do pavimento imediatamente superior.  Ele não concilia nada por trás, sendo considerado uma solução mais ‘honesta’.  Já o teto oco – representado pelo forro – trás uma nova e misteriosa tridimensionalidade a este elemento. A solução do teto oco ganhou maior importância nos edifícios contemporâneos de grande escala, sobretudo pela sua capacidade de conciliar os dutos de instalações e equipamentos.

Teto como ornamento
Teto Funcional
A Janela
Mais do que uma conexão visual entre ambientes e o dentro/fora, a janela pode ser um ambiente por si só; ao exemplo das “baywindows”, seus parapeitos servem como apoio ou assento.  Sua transparência varia e pode ser articulada a outros elementos que filtram a interação entre os espaços, como cortinas, persianas, venezianas.   Com o advento da arquitetura moderna, as premissas das fachadas livres de estrutura e as janelas em fita, o vidro tornou-se principal componente das janelas, tomando conta por completo do vão emoldurado.  O mesmo ocorre com as esquadrias dos edifícios contemporâneos.  O vidro oferece transparência, ou seja luminosidade para o espaço, e ao mesmo tempo total encerramento e controle térmico.


As múltiplas formas das janelas
Teste de desempenho e durabilidade das esquadrias
Fragmentos - As peças que compõem a esquadria
Corredor
Originalmente associado à figura do corredor, que corria de um lugar ao outro para entregar mensagens, o conceito de percurso foi eventualmente incorporado pela arquitetura.  O corredor tornou-se um elemento de organização espacial, sobretudo após o modernismo, muito associado à ideia de escape.  Hoje, o corredor voltou a extrapolar os limites da arquitetura, abrangendo também o urbanismo através dos corredores de transportes e canalizadores de fluxos. 



Fachada
Apesar de estar associada às noções de desenho e estilo, a fachada talvez seja o elemento arquitetônico que mais se submeta às influências dos avanços tecnológicos e do contexto histórico no qual se insere.  A fachada é o filtro absoluto entre o dentro e fora, influindo sobre a luminosidade, o controle da temperatura interna, etc.  Ele também é o símbolo do empreendimento, a sua imagem caracteriza o edifício.

Fachada mediática
Fachada Cinética


Fachada Verde


Parede
A parede sempre se destacou por duas funções vitais: a estrutural e de divisória entre os espaços. Com os avanços tecnológicos, elas perderam a primeira função, tornando-se elementos mais efêmeros na composição.  Essas mudanças deram margem à criação do conceito de planta livre e o potencial de múltiplas composições espaciais.  Com isso, sua materialidade e dimensões gerais foram mudando, tornando-se mais leves e finas ao longo do tempo.








Porta
Além de moldura para passagem, a porta também representa a barreira, a tranca.  Assim como os demais elementos, ao longo das últimas décadas a porta também se associou a elementos alheios a ela com a finalidade de adquirir novas funções.  Hoje a porta pode abrir automaticamente a partir de sensores de movimento, ela pode detectar metais e até mesmo  realizar ‘body scans’. Um elemento associado ao controle devido à sua forte relação com o conceito de segurança.



Escadas
Muitas vezes designada um caráter utilitário, as escadas comumente são alocadas aos cantos dos ambientes, por vezes quase escondidas para não interromper ou interferir no espaço.  Historicamente, entretanto, as escadas possuíam uma importância icônica. Externamente, os degraus eram utilizados para criar um patamar elevado de acesso, afastando a entrada principal do nível da rua.  Hoje, com a preponderância de valores como a acessibilidade universal, o uso de escadas e degraus para a criação de patamares diferenciados é desestimulada.  A sua subida implica um esforço adicional, tornando-a um elemento antidemocrático dentro do espaço, apesar de ainda ser uma das soluções mais eficientes para as situações de escape. 

Varanda
A saliência da arquitetura.  Historicamente, a figura da varanda está fortemente associada ao ato político.  Uma rebeldia da arquitetura na qual o espaço íntimo avança rumo ao exterior.  Não é surpreendente que a varanda tenha se tornado instrumento para discurso político.  Com isso em mente, a exposição resgata centenas de fotografias de governantes de variados países em diferentes momentos históricos, todos se aproveitando da tipologia da varanda para o seu discurso. 
“without the balcony, there would have been no history”




Contraditóriamente, somos também convidados a adentrar outro tipo de varanda – aquela vernácular – que traz filtros ou ‘muxarabis’ que impedem a visualização de quem está fora para dentro, garantindo assim uma privacidade aos moradores.  Nesse caso, mais empregado nos programas residenciais, os moradores no interior podem observar o movimento da rua sem serem vistos.

Muxarabis - tipo de varanda que oferece privacidade a quem está por trás

8 de outubro de 2014

Biennale di Venezia | L' arsenale Monditalia Scan


Inicio com este texto uma série sobre a Bienal de Arquitetura de Veneza em 2014. A bienal deste ano teve curadoria do arquiteto holandês Rem Koolhaas e permanece em exposição do dia 7 de Junho a 23 de Novembro deste ano, 3 meses a mais do que o habitual para uma bienal de arquitetura.  A mostra é dividida em diferentes segmentos principais e neste texto vou abordar a exposição “Monditalia”, que está atualmente exposta no Corderie Arsenale.



O pavilhão de l’arsenale abrigou nesta edição uma mostra dedicada inteiramente ao País sede da bienal – a Italia.  Traçando um retrato de norte ao sul do País, a mostra abordou temais variados passando pela imigração, a instabilidade política nacional, as ruínas do modernismo à evolução das discotecas de Milão.  Vemos uma Itália influenciada pelos interesses do mercado imobiliário e suscetível aos efeitos do turismo de massa, como ocorre com Veneza e Assis.  São ressaltados também os problemas de patrimônio, os desafios da preservação e as transformações trazidas pelas mudanças climáticas, tais como as fronteiras físicas na obra “Italian Limes”.



A mostra conta com painéis e vídeos apresentando pesquisas e estudos de caso, porém é o tempo todo acompanhada por projeções de filmes que ajudam a criar um imaginário do País.  Dentre eles, vemos cenas dos filmes “Le mépris” de Jean Luc Godard, “Roma” Frederico Fellini, “Caro diário” de Nanni Moretti, o “Deserto vermelho” de Michelangelo Antonioni , “Beleza Roubada” de Bertolucci, entre muitos outros. 



Para além do cinema, a exposição busca intercalar diferentes setores de arte – foram montados palcos que permitem a realização de espetáculos de dança, teatro e música no meio da exposição.



A seguir, destaco algumas das obras expostas:

Roma – San Giacomo Hospital – the ghost block of giambattista nolli

A obra propõe uma análise sobre as ruínas contemporâneas e o descaso com as instituições públicas.




Ground floor crisis - Primo Piano Patrimônio

Uma grande inundação nas cidades de Florença e Veneza em 1966 trouxe a tona o problema do pavimento térreo e a preservação do patrimônio nos centros históricos.  Esse movimento também elimina a separação entre o dentro/fora e o público/privado, dando margem a uma nova percepção de cidade - a cidade anfíbia.



Biblioteca Laurenziana de Michelangelo

“Michelangelo takes each architectural element and forces it into new shapes and new relationships” Rem Koolhaas.



I resti di uno miracolo

Panorama de fotografias de obras do modernismo italiano com questionamentos sobre o destino dessas edificações:



“As obras primas do modernismo italiano, construídos durante os prósperos anos das décadas de 50 e 60, produtos da ambição política industrial e econômica, refletem a pesquisa daquela época. Esses prédios encontram-se hoje em estado de abandono e negligenciados.  Isso traz um retrado da realidade italiano a cerca da:
- nascimento, vida e morte da economia italiana. Os ciclos;
-o sonho progressista dos arquitetos e engenheiros italianos,
- a qualidade inerente da pesquisa arquitetônica e construtiva,
- a (im)possibilidade do futuro da arquitetura
-nossa incapacidade de protegê-la
-nossa incapacidade de reutilizá-la
-nossa incapacidade de reciclar ideias
-o fato que construir algo novo é mais barato do que restaurar, construir é mais barato do que demolir
- a arquitetura tem uma vida curta e o arquiteto não é responsável pelo seu tempo de vida
- a realidade é mais forte do que a arquitetura
- a arquitetura moderna não se mostrou flexível o suficiente ao longo do tempo”

 Italian limes

Uma maquete com projeções mostrando as modificações das fronteiras físicas da Itália em relação aos países vizinhos em um contexto de derretimento das geleiras nos topos do Alpes, processo decorrente das mudanças climáticas.



3 de setembro de 2014

the federation square | Melbourne


Fui a Melbourne com o intuito de percorrer o seu centro adaptado à escala das pessoas, já relatado aqui no blog no texto A escala humana de Melbourne , mas também para conhecer a sua ousada arquitetura. O ápice dessa ousadia eu verifiquei no projeto do ‘Federation Square’.  A primeira vez que avistei-o foi à noite e a distância; era um festival espetacular de luzes e fiquei curiosíssima para saber do que se tratava. Voltei no dia seguinte de manhã e encontrei uma ambiência completamente diferente.

Trata-se de um dos maiores complexos culturais da cidade. Vencedor de um concurso realizado em 1996, o projeto é resultado de uma parceria entre o escritório inglês Lab Architecture Studio e o Bates Smart, de Melbourne. O projeto integra-se ao movimento urbanístico de devolver o espaço do centro da cidade para as pessoas. Historicamente, as margens do rio Yarra foram predominantemente ocupadas pelo sistema ferroviário, o que separou a cidade da água.  O Federation Square reestabelece essa ligação, elevando o espaço público sobre a estação de trem e levando as pessoas para perto da água.  O resultado disso é um imenso complexo de blocos aurônomos organizados em torno de uma praça.





Quando lá cheguei, a praça estava amplamente ocupada.  O espaço é provido de um mobiliário urbano variado; bancos, degraus, patamares e muretas oferecem pontos de descanso e grandes pérgulas hexagonais oferecem sombra para os dias ensolarados.  Sobre as laterais dos prédios foram aplicados telões que, no momento da minha visita, transmitiam ao vivo os jogos de tênis do Australian Open, e muitas pessoas aproveitavam o horário de almoço para assistir o torneio.  No nível térreo, encontramos ainda restaurantes, museus, lojas, cafés e um centro de informações.



O complexo cultural conta com múltiplos acessos. Entre os blocos que encerram a praça, há uma série de escadarias que vencem a diferença de nível em relação à via do entorno, a Flinders Street.  Pode-se também atravessar por dentro dos edifícios.  Apesar das muitas ligações entre a praça e a Flinders Street, li grandes críticas à permeabilidade urbana do conjunto e à sua relação com o entorno.  Alguns críticos consideram que, numa tentativa de valorizar a praça, a composição criou um grande muro ao longo da via principal. De fato, como podemos ver na fotografia abaixo, a calçada da Flinders Street fica vazia visto que é muito mais agradável andar por dentro da praça.



Transversalidade dos edifícios - É possível acessar a praça interna a partir de galerias internas.
Flinders Street vazia
Sobre a composição arquitetônica, devo dizer que achei o complexo feio de modo geral. Senti que faltou uma coerência na linguagem.  Ao misturar tantas soluções com estilos tão distintos, não existe um que sobressaia e com isso, gestos importantes perdem a força.  Isso não quer dizer que não há aqui soluções interessantes. Gostei especialmente da fachada metálica perfurada do acesso ao NGV-The Ian Potter Centre. Só achei que, como o revestimento das fachadas por si só já varia em termos forma, paginação, tonalidade e aberturas, a pavimentação da praça poderia ser mais sóbria.  As pedras do piso repetem o mesmo jogo de cores da fachada; ficou muita informação.

Entrada Ian Potter Centre




Há ainda o grande átrio para a National Gallery, um espaço impressionante mas tão repleto de informações que te deixa meio tonto.  São tantos elementos que você não sabe para onde olhar primeiro. Uma caixa de vidro com limites pouco demarcados, o que atribui uma grande a continuidade do espaço interno com o exterior.  A esquadria é sustentada por uma estrutura em teia, o que repercute em um desenho de sombra e luz extremamente singular no interior.  Independente de ser feio ou bonito, não deixa de ser impressionante.





Não questiono o sucesso do projeto.  O conjunto foi bem incorporado pela cidade e tornou-se um local cheio de vida ao permitir uma ampla utilização do espaço. Esse gesto de devolver o espaço no centro às pessoas representa uma grande conquista da cidade e, nesse sentido, o Federation Square é o ápice desse movimento.  Ele reconquista o espaço público e as margens do Rio Yarra de forma retumbante e monumental.




17 de agosto de 2014

FLIP 2014(2) | FEIRA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE PARATY

Mesa 7 | A mesa com Michael Pollan

O Jornalista americano Michael Pollan Fonte: paraty.com.br/flip


Michael Pollan é um jornalista que nos últimos anos vem realizando um estudo sobre a saúde, alimentação e a indústria alimentícia nos Estados Unidos.  Seus livros “O Dilema do Omnívoro” e “Cozinhar”, que acaba de ser lançado em português no Brasil, estiveram na lista dos livros mais vendidos nos EUA segundo o The New York Times.  

Em um primeiro momento, ele se perguntou: “de onde vem a comida?” Nós perdemos o vínculo com a origem do processo e desconhecemos o desenvolvimento da cadeia alimentar. Essa sua curiosidade o levou ao início de tudo, conhecendo as fazendas e plantações.  Ele nos contou sobre as paisagens moldadas pela indústria alimentícia e de como o interior dos EUA se assemelha a uma grande fabrica.  As paisagens rurais estão sendo moldadas de acordo com a lógica fabril, dividindo os solos e as plantações em setores que não conversam.

Para Pollan, o ato de cozinhar a própria comida é de extrema importância.  Esse ato nos aproxima da natureza, ajuda-nos a conhecer melhor os seus frutos, além de nos dar um maior controle sobre a nossa saúde e bem-estar. Isso sem contar que grande parte da socialização e da educação cívica ocorre em torno da mesa. Para ele, cozinhar chega a ser um ato político, pois assim as pessoas retomam o poder sobre a sua dieta, sobre o preparo e sobre o que elas vão comer.  Há anos a indústria vem preparando a nossa comida - seja nos fast foods, nas comidas semi prontas ou nos congelados.  O que ele chama de ‘comida processada’ ou ‘embalada’ é muito comum e recorrente.

Seus livros propõem uma nova maneira de pensar as nossas refeições, não a partir de calorias, vitaminas e moléculas mas a partir da comida em si.  Para mais informações sobre a sua pesquisa, vejam aqui uma excelente reportagem sobre ele na Folha de São Paulo:

http://www1.folha.uol.com.br/serafina/2014/07/1490666-voltar-a-cozinha-e-um-ato-politico-diz-jornalista-michael-pollan-atracao-da-flip.shtml


Mesa 13 – A verdadeira história do Paraíso, com Etgar Keret e Juan Violloro. 

Os autores Etgar Keret e Juan Villoro Fonte: oglobo.globo.com


O nome dessa mesa vem de um texto do Millôr Fernandes, autor homenageado nesta edição da FLIP, um texto que foi censurado e resultou na sua saída na época da revista "O Cruzeiro".  A mesa trouxe os autores Etgar Keret, de Israel, e o mexicano Juan Villoro.  Na conversa, uma visão sobre o paraíso em contraste ao horror da guerra - os paraísos que decepcionam. Face às questões complicadas do México e de Israel, qual o papel da literatura nestes lugares? Os autores consideram que a literatura mantém o humor nesse momento de tristeza. Ela traz também um sentido e uma reflexão em contextos de violência e falta de esperança.

No livro de Juan Villoro “Arrecife” ele explora os fascínios dos estrangeiros pelo turismo exótico e por tudo que os aproxima do perigo.  Menciona as visitas turísticas à fronteira do México com os EUA – um lugar de muito perigo que exerce um fascínio sobre as pessoas. Já o Israelense Edgar Keret diz que o humor da literatura serve como uma forma de protesto e é uma maneira de manter a sua dignidade numa realidade de violência. Para ele, a literatura é o único lugar onde tudo é possível – não há regras.  Essa atitude se torna clara em seus contos surrealistas de “De repente uma batida na porta”, que conta com situações absurdas que lembram a ironia de Woody Allen e o aprisionamento de Kafka.

Mesa 17 – Ouvir Estrelas com Marcelo Gleiser e Paulo Varela.

Marcelo Gleiser de pé e Paulo Varela a direita Fonte: revistadacultura.com.br


Essa mesa leva o seu nome de um soneto de Olavo Bilac:

Ouvir Estrelas

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas". 

Olavo Bilac (Poesias, Via-Láctea, 1888)

A conversa sobre astronomia contou com a presença de Marcelo Gleiser, astrônomo e professor em Dartmouth nos EUA, e do geógrafo Paulo Varela.  Paulo discursou sobre a atual situação da astronomia no Brasil enquanto Gleiser elaborou sobre algumas das mais recentes descobertas no ramo da física quântica. 

A mesa contou com reflexões existencialistas sobre a condição e o papel do ser humano no universo e sobre o nosso conhecimento sobre o mesmo. Em seu novo livro, “A ilha do conhecimento”, Marcelo Gleiser compara o nosso conhecimento a uma ilha. Uma ilha que ganha terra e cresce a medida que adquirimos novos saberes porém está sempre cercada de um oceano do desconhecido.  Novos instrumentos tais como o microscópio possibilitam novas descobertas mas jamais conseguiremos cobrir todo o oceano de desconhecimento.  Nossa visão da realidade será sempre míope – com novas descobertas, surgem novas perguntas. Utilizando a metáfora de Platão, Gleiser diz que vivemos perpetuamente numa caverna do conhecimento. 

Ao ser questionado sobre a possibilidade de vida em outros planetas, Gleiser ressalta que é preciso discernir ‘que tipo de vida’ estamos falando. Vida simples certamente existe (micro organismos, etc.) mas a vida complexa, tal como a do ser humano, é algo extremamente raro.  Além de raro, se de fato existir outra forma de vida inteligente, até mesmo dentro da nossa galáxia, as distâncias que nos separam são tão gigantescas que seriam necessários milhares de anos até que ocorresse um possível encontro. Em outras palavras, o ser humano pode não ser a única espécie inteligente existente, mas nós estamos sozinhos e isolados dentro do nosso sistema solar.  Nós, seres humanos, somos raridades e isso nos dá uma imensa responsabilidade de preservação de vida e de estudo sobre o universo.

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Com isso, encerro meu relato sobre a FLIP 2014. Um evento com mesas interessantes que, apesar de não serem muito longas, chegam a se aprofundar nos seus temas e nos trazem visões diferentes sobre variados assuntos. Já estou ansiosa pela edição de 2015. 



11 de agosto de 2014

FLIP 2014(1) | FEIRA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE PARATY

Tenda dos Autores da FLIP 2014


Post especial sobre a Feira Literária Internacional de Paraty, a FLIP, realizada anualmente na cidade entre os meses de Julho e Agosto.  No texto, alguns dos melhores momentos das mesas que tive a oportunidade de assistir.

Mesa  2 | Os Possessos, com Elif Batuman e Vladimir Sórokin, com mediação de Bruno Gomide.

Foto com Elif Batuman e Vladimir Sórokin. Foto: Walter Craveiro. Fonte: fotospublicas.com


A primeira mesa trouxe uma discussão sobre a literatura russa entre Vladimir Sórokin, um dos maiores autores russos da atualidade e Elif Batuman, norte americana de origem Turca que estudou literatura russa em Harvard e Stanford e hoje dá aula na mesma.  Entre anedotas e opiniões próprias, ambos falaram sobre a obra de Dostoiévski, sobre a produção literária no período soviético e sobre o caráter cômico e trágico da literatura russa – repleta de humor e tristeza ao mesmo tempo. Sórokin diz que a vida na Rússia é difícil e as duas coisas que os ajudam a superar são: o bom humor e a vodka. 

Sobre o ato da escrita, ambos refletem sobre a relação do autor com o contexto em que vive.  Sórokin considera que o autor que não vive o seu contexto, aquele que se fecha em seu próprio mundo e só escreve, torna-se um monumento a si mesmo.  Considera válida a colocação de um filósofo que dizia que um escritor morre a partir do momento em que desenvolve um estilo próprio.  Me pergunto até que ponto essa colocação não é válida para as outras artes, até mesmo para a arquitetura. 

Para concluir, ao serem feitas perguntas relacionadas à política, sobretudo em relação à atual crise com a Ucrânia, Sórokin encerra elegantemente a conversa com a seguinte colocação: “Putin vem e vai. O romance fica”.

Mesa 3 | Fabulação e Mistério com Eleanor Cotton e Joel Dicker, com mediação de José Luiz Passos.

Mesa 3: Eleanor Cotton e Joel Dicker. Foto: Walter Craveiro. Fonte: fotospublicas.com


Eleanor Cotton e Joel Dicker são autores extremamente jovens e que em pouco tempo já obtiveram reconhecimento internacional. Eleanor foi a mais jovem autora a ganhar o ‘Man Booker Prize’ com o seu livro “Os Luminares” enquanto Joel Dicker ganhou 2 grandes prêmios na França pelo seu suspense “A verdade sobre o caso Harry Quebert”.  Entre os temas abordados na conversa, os autores falaram sobre a importância do leitor para o livro – o autor faz 50% do trabalho através da escrita mas depende fundamentalmente do olhar do leitor.  Por isso, Joel Dicker diz que gosta de trabalhar com clichês pois acredita que isso estimula o 50% de retorno / participação de seus leitores.

Em uma reflexão interessante sobre passados e realidade, os autores falaram ainda sobre a temporalidade dos romances e a dificuldade de escrever no passado. Enquanto o livro de Cotton se situa na idade média na Nova Zelândia, o livro de Joel Dicker se passa nos anos 80.  De certa forma, a liberdade de Joel torna-se ainda mais restrita devido à proximidade da data.  Fatos mais próximos são mais memoráveis e qualquer equívoco ou imprecisão sobressai.  Um passado distante, no entanto, deixa muitas manchas de desconhecido, o que dá ao autor uma maior margem para a imaginação.

Mesa 4 | Paraty, Veneza no Atlântico Sul. Uma conversa entre Paulo Mendes da Rocha e Francesco Dal Co, com mediação de Guilherme Wisnik

Esta era a mesa que eu mais aguardava.  Tratava-se de um encontro entre um dos maiores arquitetos brasileiros, o ganhador do premio Pritzker em 2006 – Paulo Mendes da Rocha – e o crítico Italiano e editor da revista Casabella – Francesco Dal Co.

Foto: Paulo Mendes da Rocha e Francesco Dal Co. Fonte: noticias.bol.uol.com.br


Paulo iniciou a conversa falando sobre o processo de formação de cidade; como essas são consequência do desejo humano - um desejo sempre insatisfeito.  Este desejo de conquista exige uma intervenção contínua sobre a natureza.  Para que esta se torne habitável, ela deve ser adaptada às necessidades humanas.  Neste contexto de domínio e imposição sobre a natureza, Paraty e Veneza surgem como duas cidades improváveis.  

Francesco Dal Co, que mora em Veneza, inicia a sua participação na conversa com uma frase do autor italiano Petrarca :“Venezia è l’impossibile nato sulla impossibilitá” (Tradução: Veneza é o impossível que nasce da impossibilidade). Situadas próximas da água, ambas as cidades são invadidas pela mesma.  As ruas de Paraty são tomadas pelas águas quando a maré sobe e Veneza é largamente conhecida pelos seus canais labirínticos.  Ambas as cidades nasceram e se fortaleceram por sua forte relação com a navegação. Veneza era um ponto importante de trocas comerciais entre o ocidente e o oriente até o final do século 15. Já Paraty oferecia uma baía de águas calmas onde os navios podiam atracar para levar o ouro obtido em Minas Gerais, durante o ciclo do ouro no Brasil no século 18.

Tanto Veneza quanto Paraty perderam nos últimos séculos seus papeis originais de ponto de escambo e pólo da navegação embora permaneçam como joias do patrimônio mundial.  No caso de Veneza, sua reputação é tão gigantesca que a cidade recebe anualmente 23 milhões de habitantes. Dal Co questiona esse movimento de turismo em massa, expondo um conflito da cidade entre a sua preservação e os efeitos nocivos desse movimento efêmero e constante, que descaracteriza a forma a cidade.

Nessa conversa sobre conflitos, Mendes da Rocha e Dal Co afirmam que a cidade, de modo geral, é o âmbito dos conflitos.  Todas as cidades são feitas de conflitos e é preciso aprender a conviver com eles. Para Dal Co, a própria arquitetura é resultante de conflitos – o Museu da Escultura Brasileira em São Paulo, projeto de Paulo Mendes, por exemplo, traz um belíssimo conflito entre a estrutura e a força da gravidade. Ambas as cidades espelham esse conflito em sua relação com a natureza.  Apesar de se assentarem sobre solos moles e apesar da invasão da água – em Veneza, por exemplo, estão sendo executados grandes projetos de contenção para a preservação da cidade – as duas cidades permanecem.  De acordo com Paulo Mendes, a natureza é uma beleza a ser contemplada através do emolduramento da janela, e segue como um desafio a ser confrontado constantemente na formação de uma cidade.  

24 de julho de 2014

MELBOURNE MUSEUM | AUSTRALIA



Enquanto em Melbourne aproveitei para conhecer o Melbourne Museum – o maior museu do hemisfério sul. O museu fica dentro dos ‘Jardins Carlton’(Carlton Gardens), um parque público que fica a aproximadamente 10 minutos a pé do Centro. Quem vem do Centro não vê o museu de imediato; após passar pelos caminhos arborizados dos Jardins, depara-se logo com o Royal Exhibition Building, um pavilhão neo-clássico construído em 1880 para a Expo Internacional. Tanto o pavilhão quanto os jardins adquiriram título de patrimônio mundial da Unesco em 2004 – os primeiros monumentos da Austrália a receberem este reconhecimento.


Royal Exhibition Building


O Melbourne Museum, projeto assinado pelo escritório Denton Corker Marshall Architects e concluído em 2001, não aparece por trás do Royal Exhibition Building devido à sua forma essencialmente horizontal – é preciso contornar o mesmo para avistar o museu.   Os edifícios são adjacentes, porém relativamente afastados um do outro, o que permite a visualização de cada bloco de modo independente.  Nesse gesto de clara separação entre o novo e o antigo há um respeito pelo bem preservado: o novo museu se impõe através de uma nova linguagem mas não ofusca a importância do pavilhão histórico.











O museu possui um imenso pórtico que se projeta sobre a praça de acesso.  Esse pórtico é sustentado 
por uma estrutura metálica que avança para além do edifício, uma malha modular cujos ângulos retos contrastam com a morfologia assimétrica do museu, salientando uma alternância entre o aberto e o fechado. Essa solução permite uma flexibilidade na composição da fachada que pode ser modificada em função das exposições em cartaz.


Grande cobertura,que nos impressiona pela sua escala, cria um acesso protegido do sol.Como em Melbourne o tempo é bastante instável, a cobertura também é uma boa proteção para dias de chuva.

Ao adentrar o objeto, percebemos que o pavimento de acesso é na verdade um pavimento intermediário do museu.  Neste nível encontramos apenas a bilheteria, o guarda volumes, a lojinha e o café. As exposições se desenvolvem pelos demais pavimentos – as temporárias nos pavimentos inferiores e o acervo nos superiores. Ou seja, apesar do baixo gabarito, somos surpreendidos pela sua altura dos espaços internos. Os limites desiguais das plantas dos pavimentos estabelecem um jogo de mezaninos e pés-direitos duplos, que por sua vez aumentam ainda mais a amplitude dos ambientes.






O desenho do objeto revela uma leveza e ousadia nos traços, traços retos que se desviam no meio do caminho.  Essa impressão é reforçada pelas formas quebradas ou levemente torcidas do conjunto, assim como pelos pilares e pelas paredes inclinadas no interior.

Este projeto reflete o quanto a arquitetura contemporânea Australiana é influenciada pelo movimento pós-moderno, sobretudo pelo desconstrutivismo.



Pavimento no subsolo abriga mostras temporárias. O pé direito duplo e os pisos recuados da fachada propiciam a entrada de luz natural.