21 de dezembro de 2013

Um passeio pela Avenida Paulista | São Paulo

Reconhecida atualmente como um dos principais centros financeiros de São Paulo, a Avenida Paulista foi originalmente concebida como uma região residencial para a alta sociedade Paulistana. Inaugurada no final do século XIX, no dia 8 de dezembro de 1891, a Avenida emergiu como resultado de uma nova expansão urbana pelos terrenos de antigas fazendas.

Avenida Paulista em 1891

Avenida Paulista - Bairro Residencial em 1901

Foi a primeira via asfaltada da metrópole (1909). Separada em três faixas, a Avenida possuía originalmente uma via para bondes, sendo que o mesmo só foi instalado em 1900. Havia também uma faixa para carruagens e uma para cavaleiros.
Sua concepção urbanística foi bastante inovadora para a época. A implantação dos palacetes rompia com os tecidos urbanos tradicionais. Suas fachadas podiam ser afastadas do alinhamento do terreno, o que atribuía uma maior amplitude à Avenida.
Este uso predominantemente residencial se manteve até meados da década de 50, quando as casas começaram a dar lugar a grandes edifícios comerciais. Um marco desse momento de transformação foi o Conjunto Nacional de 1954, projeto do arquiteto David Libeskind.





O conjunto nacional foi o primeiro edifício multiuso na avenida paulista.  Composto por duas lâminas – a lâmina vertical, de uso residencial e a lâmina horizontal, no caso o embasamento que concilia funções comerciais como lojas, escritórios, cinema, academia, centro cultural e um terraço ajardinado- o conjunto ocupa a quadra em sua totalidade. No entanto, os seus múltiplos acessos permitem uma completa permeabilidade do objeto e uma continuidade do percurso urbano. O caráter público do térreo permite que a cidade adentre, penetre e atravesse a construção.  Seu interior adquire, portanto, o caráter de praça pública.
A Implantação da torre é afastada da calçada, permitindo uma visualização mais plena do objeto, além de gerar um vazio entre a lâmina e a avenida.  Enquanto isso, seu bloco de base cobre inteiramente o térreo.  A horizontalidade do embasamento contrapõe a verticalidade da lâmina.
Continuidade com a calçada - Térreo do Conjunto Nacional

Na avenida, também encontramos importantes ícones culturais, característicos da paisagem paulistana.  Esse é o caso do edifício da FIESP,concebido pelo escritório Rino Levi Arquitetos Associados.  Vencedor de um concurso realizado no final dos anos 60, construído ao longo dos anos 70 e inaugurado em 1979, o edifício permanece um marco na paisagem devido à sua forma inusitada. 







MASP - Projeto de Lina Bo Bardi
Mas o grande de respiro da avenida dá-se no segmento entre a Rua Peixoto Gomide e a Alameda Casa Branca onde avistamos o Museu de Arte de São Paulo, o MASP, projeto da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, em contraposição com o Parque Trianon, inaugurado em 1892 sob o nome Parque Villon.  O museu - uma caixa flutuante, sustentada por uma vigorosa estrutura de concreto, da qual apenas 4 pontos de apoio tocam o chão. O térreo é livre de construções e barreiras físicas, um espaço que foi cedido pelo projeto à cidade. Há ainda um segundo segmento do museu no subsolo. O vão livre criado aqui permite inúmeras utilizações, desde feiras a exposições, encontros, aulas e até mesmo manifestações. Recentes discussões sobre o fechamento deste vão tem suscitado indignação entre os seus frequentadores e apreciadores. Além de artigos, vídeos manifestos na internet e debates questionando essa atitude do museu, no sábado, dia 07 de dezembro, aconteceu lá um movimento ‘abrace o vão livre do MASP.’ 











Essa discussão suscita uma série de questões. A cidade é feita para quem? Sendo esse um local amplamente ocupado pelas pessoas, o que significa o seu fechamento para o público? Não seria esse um sinal claro de como estamos privatizando e individualizando o espaço público, criando espaços que excluem no lugar de incluir? Essa atitude não vai contra o movimento de pensar as nossas cidades de forma mais democrática? Há muito ainda a se fazer em termos de planejamento urbano e sobre pensar a cidade. A batalha pela permanência do vão livre enaltece a importância dessa discussão.

3 de dezembro de 2013

X | A décima edição da Bienal de Arquitetura de São Paulo


Terminou ontem, domingo dia 01 de dezembro, a décima edição da Bienal de Arquitetura de São Paulo. O tema da bienal deste ano foi “Cidade: Modos de Fazer, Modos de Usar”. Diferente das edições anteriores, realizadas ou no Pavilhão da Bienal ou na Oca, ambos projetos do arquiteto Oscar Niemeyer situados no Parque Ibirapuera, a edição deste ano optou por romper com este passado e se expandir pela cidade.

A mostra foi fragmentada em diversas unidades de exposição. Dentre os centros que sediaram uma parte do evento havia o Centro Cultural de São Paulo(CCSP), o Museu de Arte de São Paulo  Assis Chateaubriand(MASP), o SESC Pompéia, a Praça Victor Cívita, o Cemitério do Araçá, entre outros.

Em virtude da minha curta estadia na cidade, eu pude apenas visitar dois desses espaços expositivos – o CCSP e o MASP. Apesar de não visitar a bienal em sua totalidade, fiquei muito feliz com o resultado e muito bem impressionada com essa nova disposição da bienal.




Centro Cultural de São Paulo



Primeiramente, acredito que ao espalhar a bienal por vários centros culturais, a cidade participa mais ativamente da exposição. Aliás, quando se fala de arquitetura, invariavelmente falamos de cidade. Trazer o urbano para uma bienal de arquitetura cujo tema é “Cidade: Modos de Fazer, Modos de Usar”, além de ser um gesto audacioso, permite ao visitante uma reflexão muito mais aprofundada sobre o tema.

Cobertura ajardinada do Centro Cultural de São Paulo


Espaços de convivência no CCSP



Além disso, há tempos eu sentia que o fato de concentrar todo o acervo da exposição num mesmo espaço gigantesco, como era o caso no Pavilhão da Bienal, tornava a visita muito monótona. O conteúdo variava pouco e chegava um momento em que você não conseguia mais assimilar qualquer informação. Nesta edição, a transição de um centro cultural para o outro permitiu ao visitante um momento de respiro, um momento para vivenciar o fluxo da cidade de São Paulo e um momento para contemplar a sua paisagem. Só esse movimento já é muito mais esclarecedor do que muitos vídeos e textos com os quais nos deparamos na exposição.

Quanto a mostra em si, abordarei apenas as duas exposições que visitei.
No MASP, estava em cartaz a exposição “O Asfalto e a Areia”, no segundo subsolo. Nela, uma apresentação da produção de importantes artistas e arquitetos brasileiros entre os anos 1960 e 1970, entre eles Vilanova Artigas, Paulo Mendes da Rocha, Lina Bo Bardi, Hélio Oiticica e Cildo Meireles. Através de instalações, vídeos e textos, percebemos o diálogo e o confronto existente entre as esferas pública e privada no Brasil, algo que se reflete na dicotomia entre a rua e a praia.

Havia também umas séries de fotografia que abordavam o território em transformação. Dentre essas, a série “Paisagem e Terra”, de Pedro Motta, ou a “Onda de São Paulo” de Isidro Blasco. Algumas instalações também que convidavam o visitante a interagir, como o vídeo feito por um ciclista, que só é projetado a partir do momento que o visitante monta na bicicleta em exposição e começa a pedalar para ativar o projetor.

Já o CCSP, destacado como a base principal da Bienal, reuniu o maior conjunto de pesquisas e exposições especialmente produzidas para o evento.



"Le Grand Ensemble" Serie Explosions (2001-2008) Mathieu Pernot

 “Fazer” e “usar” a cidade pareciam ser, até pouco tempo atrás, pares dicotômicos, que aludiam, de um lado, às forças políticas e econômicas que constroem a cidade no desenho do arquiteto e, de outro, ao uso dos espaços urbanos pela população. Hoje, no entanto, está claro que esses polos não se separam, pois usar é fazer e vice-versa, e não daremos conta da complexidade crescente das cidades sem arquitetarmos seus fazeres e usos de maneira dialógica.

A exposição abrangia a problemática das urbes contemporâneas. Nela acompanhamos estudos sobre a cidade do Rio de Janeiro – o projeto “Rio Metropolitano”, com uma análise das tipologias típicas e atípicas da cidade do Rio de Janeiro, e o “Novas Cartografias” considerando o impacto das obras para as Olimpíadas, para a Copa e as demais questões que vem moldando o território metropolitano carioca.
Havia também um segmento apresentando algumas cidades dos Estados Unidos – Detroit e Los Angeles, sobretudo - onde a cultura do automóvel está tão profundamente enraizada que estas se deparam agora com uma grande quebra de paradigma. Como lidar com o colapso de uma estrutura individualista, que gira inteiramente em torno do carro, em face de um movimento de democratização da cidade?






China. Cidades fantasmas(O Caso de Ordos Kangbashi) x Cidades Superpopulosas.
Ou o caso impressionante das imitações à escala urbana, como em Shenzhen, que chegam a copiar cidades inteiras.



Série "Made in China" (2013), fotografias de Valentina Tong.


 Para enaltecer essas discussões, a mostra traz depoimentos de grandes autores do passado, como Alison e Peter Smithson, a discussão sobre projetos icônicos como o COPAN, de Niemeyer, ou sobre um projeto de Sérgio Bernardes para o Rio de Janeiro, assim como também a exemplificação através de mídias que transcendem a arquitetura, como o cinema e a música.



Em resumo, acho que a bienal desse ano se mostrou muito mais diversificada e convidativa. Não apenas aos arquitetos, mas aos demais interessados no tema também.

25 de novembro de 2013

Niemeyer e Chanel | Exposição na Oca


Para quem estiver em São Paulo esta semana, vale a pena conferir a exposição "The Little Black Jacket", na Oca, projeto do arquiteto Oscar Niemeyer, dentro do Parque Ibirapuera.





A exposição itinerante, que já passou por Tokyo, Paris, Londres, Berlim, Sydney, entre outras cidades, chegou a São Paulo no dia 31 de Outubro. Na mostra, uma série de fotografias de artistas famosos usando a icônica jaqueta preta da Chanel, clicadas pelo próprio Karl Lagerfeld, diretor de criação da grife.



A exposição termina domingo, dia 01 de dezembro, 2013.











19 de novembro de 2013

Chandigarh e Brasília | Um mesmo gesto colonizador em cantos opostos do mundo

Visitar Chandigarh não fazia parte do nosso roteiro original. Depois da viagem de trem pelo Rajastão, tínhamos ainda 2 dias em Delhi. Ao descobrir que Chandigarh fica a apenas 3 horas de trem da Capital, não pude deixar de ir passar um dia pela cidade.


Uma nova capital para o Punjab

Com a independência da Índia do Império Britânico, em 1947, e a partição e criação do Paquistão, a antiga capital da região do Punjab (Lahore) passou a pertencer ao Paquistão.  O Punjab precisava portanto de uma nova capital. Em um primeiro momento, pensou-se em adaptar a estrutura do governo a uma cidade existente mas, em virtude da nova demanda populacional, com mais de 4,5 milhões de emigrantes provindos do Paquistão, chegou-se ao acordo de construir uma nova cidade do zero - Chandigarh.

Após a definição de um sítio, a contratação de urbanistas para desenvolverem o masterplan da cidade foi efetuada.  Jawaharlal Nehru, o primeiro ministro da época, contratou os americanos Albert Mayer e Matthew Nowicki. Mayer serviu de tenente na India durante a 2ª guerra, ocasião em que conheceu Nehru, e demonstrou-lhe o seu interesse de algum dia trabalhar em algum projeto para o país. Eles iniciaram o projeto porém, em agosto de 1950, o seu sócio morreu em um acidente de avião. Mayer então declarou que não conseguiria continuar o projeto sozinho e abandonou-o pela metade. 

Após este choque, houve um momento de indecisão. Quem deveria herdar esse projeto, se encarregar da construção e concepção da nova capital?  Após a discussão em torno de vários nomes, fechou-se entorno de Le Corbusier.

Le Corbusier Center
Chandigarh Architecture Museum - Museu de Arquitetura de Chandigarh
Museu de Arquitetura de Chandigarh
Entrada de Luz no Museu de Arquitetura
Modulor

O Plano de Corbusier e a semelhança com Brasilia

Ao visitar Chandigarh, a comparação com Brasilia torna-se inevitável.  Chandigarh(1947) e Brasília(fundada em 1960) nasceram com pouco mais de 10 anos de diferença. Em ambos os contextos, este era um momento de grande expectativa em relação ao futuro. Na Índia, com o fim de uma guerra religiosa e a separação do estado do Paquistão e, no Brasil, com a prosperidade e desenvolvimento econômico. Brasília foi uma cidade concebida para ser apreciada pelo ponto de vista do carro.

Plano Urbano de Chandigarh

Plano Piloto para Brasília, de Lúcio Costa


Ambas seguem os princípios da Carta de Atenas, de 1933 - o modelo de cidade progressista com as diferentes zonas claramente delimitadas: habitar, trabalhar, lazer e circulação. Em Chandigarh, estas zonas são distribuídas por uma malha de retângulos, denominados ‘setores’, cada um medindo 1.200 x 800m. Em Brasília, temos as “superquadras” residenciais, de 240mx240m, que seguem o grande arco das asas do Plano Piloto.

High Court - Supremo Tribunal

High Court
Secretariat

Secretariat
 De modo semelhante ao Plano Piloto de Lúcio Costa, no qual a praça dos três poderes – com o Palácio do Planalto (executivo), o Supremo Tribunal Federal (Judiciário) e o Congresso Nacional (legislativo) - ‘encabeçam’ o conjunto, é no ‘Capitol’, no extremo norte de Chandigarh, que se situa o ‘Secretariat’, o ‘High Court’ (Supremo Tribunal Federal) e a Assembléia. Apesar de ocupar uma posição de evidência na malha, o Capitol se adequal à mesma, preservando a estrutura dos módulos.  O Capitol corresponde à dimensão de 2 módulos unificados. Contrariamente, em Brasília o governo é distinguido não apenas pela sua posição no plano mas pela sua forma também.

Congresso Nacional, projeto de Oscar Niemeyer


Em Chandigarh foi criado um lago artificial, bem como em Brasília. Esta é a principal área de lazer da cidade.

Enquanto em Brasilia, a cintura verde é ao longo da faixa residencial, em Chandigarh ela atravessa a cidade numa uma faixa verde que corta a cidade sentido norte sul. Uma cintura verde com diversos jardins, entre eles o Rose Garden.

O setor comercial está concentrado no setor 17. Galerias em torno de uma grande praça que propiciam o encontro e o passeio sob os pilotis. Lembra um pouco a tipologia do ‘Connaught Place’ de Nova Delhi.

Setor 17 - Centro Comercial


O Racionalismo encontra a Cultura Local

Sinalização de Trânsito













Os espaços públicos de Chandigarh são organizados e bem cuidados. Essa foi a primeira cidade na Índia onde eu percebi que o trânsito realmente funciona. Perdi as esperanças depois de presenciar o caos dos congestionamentos de Nova Delhi. Não que a cultura seja outra, mas parece que todo o sistema orienta melhor as pessoas. Essas, por sua vez, se sentem mais inclinadas a obedecerem as regras. Há muitas latas de lixo na rua, bicicletários, sinalizações – Tais elementos parecem fazer com que as pessoas cuidem mais do espaço público.

Obviamente há elementos que fogem do plano original. Não dá para o urbanista querer controlar tudo. Em muitos casos, a população adequou o construído à sua cultura e o ocupou em função das suas necessidades.  Houve casos como alguns pontos de ônibus, por exemplo, que as pessoas utilizaram para prender as vacas.




Um outro exemplo, no Capitol, sob o monumento da mão aberta, viu uns funcionários aproveitando o espaço livre para jogar uma partida de “Cricket” durante o intervalo do almoço.


O modelo Progressista de Le Corbusier, terá ele ajudado os residentes de Chandigarh a viverem melhor? A escala certamente facilita a sua organização. Chandigarh é uma cidade 1 milhão de habitantes, pequena em comparação com Mumbai (12 milhões), Delhi(11 milhões) ou Bangalore(8 milhões). Talvez o bom funcionamento se dê também graças à jovialidade da cidade, um otimismo impregnado desde a sua concepção. Seja como for, Chandigarh permanece um forte exemplo de como um bom projeto pode influenciar o comportamento das pessoas, mas que mesmo um bom projeto está sujeito a ocupações e apropriações inesperadas do espaço por parte dos seus usuários.